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Série: E se Free Willy não fosse ficção? Parte 3: A língua e a cultura das orcas


O que é língua? Só os humanos têm?


Bom, depois disso tudo (clique aqui ou aqui caso você ainda não tenha lido as Partes 1 e 2, respectivamente), a pergunta só pode ser uma: o que é língua e cultura? Em muitos casos, língua é definida, acima de tudo, como o que distingue e define a espécie humana e a torna única entre as outras que habitam o nosso planeta: no campo da filosofia, os primeiros questionamentos acerca das capacidades linguísticas de outros animais remontam à Grécia Antiga e, ao longo dos anos, grandes nomes da filosofia ocidental adotaram posições semelhantes às dos pensadores gregos.

Aristóteles acreditava que o domínio da língua era necessário para um indivíduo ser capaz de distinguir entre uma ação moralmente boa ou não, determinando assim quem poderia ou não pertencer à comunidade política, sendo os humanos os únicos dotados de tal capacidade. Já Descartes afirmava que, uma vez que outros animais não falam, logo não pensam. Por fim, Kant e Heidegger seguiam posições semelhantes: para o primeiro, outros animais não possuem logos e, portanto, não fazem parte da comunidade moral; para o último, aqueles que não possuem língua não morrem, simplesmente desaparecem e apenas os animais humanos pertenceriam aos que realmente morrem.

Por outro lado, na Linguística, pouco ainda se discute sobre o assunto, mas as posições tendem a ser semelhantes às dos filósofos citados. Para Saussure, a Linguística, quando ele fala da matéria e tarefa dela, se debruça sobre todas as manifestações da “língua humana”. Por sua vez, Sapir afirma que a língua é um método de comunicação de ideias “puramente humano”, e que todas as manifestações da língua são “criações da mente humana”; o linguista alemão inclusive brevemente se detém sobre as habilidades comunicativas de outros animais, sobre as quais ele declara serem involuntárias, instintivas e, por isso, longe de poderem ser consideradas línguas: seria uma característica de todos os grupos de seres humanos e somente deles. Já Whorf, em seu capítulo sobre Linguística como uma ciência exata, diz que a fala, ou língua, é “a ação mais humana de todas”.

Por fim, em algumas pesquisas sobre aquisição da linguagem em crianças, trabalhos de Halliday e Painter levantaram uma relação de quase equivalência entre as capacidades linguísticas de crianças em estágios iniciais de desenvolvimento linguístico e de outros animais, segundo as quais existiria uma relação de 1-para-1 entre os significados e sons produzidos nos dois casos. Nessas pesquisas, podemos perceber que a teoria esteve sempre e somente preocupada com a comunicação humana. Halliday, em mais de uma ocasião, disse que a LSF se debruça sobre “língua verbal, natural, humana e adulta” e que “língua realmente […] constrói experiência humana”.

Partindo de todos esses pressupostos, realmente, é inegável: animais não têm língua. Contudo, e se olhássemos para língua de uma forma diferente? Língua como um comportamento que evoluiu e evolui ao longo do tempo e a partir dos conceitos de homologia e analogia, por exemplo. Para entender como a evolução funciona, é muito comum que biólogos mencionem os conceitos de homologia e analogia; homologia basicamente se refere a traços compartilhados derivados de um ancestral comum: por exemplo, a mão humana é homóloga à asa de um morcego, uma vez que ambas derivam de um membro anterior ancestral e carregam exatamente o mesmo número de ossos. Por outro lado, as analogias surgem quando animais geneticamente distantes evoluem independentemente na mesma direção, conhecida como convergência evolutiva.

O cuidado parental dos Acará-disco, uma espécie de peixe, é análogo ao da amamentação dos mamíferos, mas não é homólogo, uma vez que peixes e mamíferos não compartilham um ancestral que fazia o mesmo. Outro exemplo é como golfinhos (lembrando: orcas são golfinhos, não baleias), ictiossauros (répteis marinhos extintos) e peixes têm formas muito semelhantes devido a um ambiente em que às suas necessidades: um corpo aerodinâmico com nadadeiras para melhor uso da velocidade e capacidade de manobra no oceano.

Como os golfinhos, ictiossauros e peixes não compartilharam um ancestral aquático, dizemos que suas formas são análogas. Podemos aplicar a mesma linha de pensamento ao comportamento e, consequentemente, à língua. Um exemplo marcante disso vem da capacidade de algumas espécies de vespas e primatas de reconhecer rostos. Nesse caso, essa habilidade surgiu de forma independente, como uma analogia, com base na necessidade de reconhecer companheiros de grupo individuais. 

No caso da analogia, lidamos então com espécies geneticamente muito longe uma das outras, mas que, ainda assim, desenvolveram a mesma ou praticamente a mesma solução funcional, provavelmente a partir de necessidades parecidas – humanos e orcas têm sociedades grandes e que se baseiam em relações interdependentes, por exemplo. Portanto, podemos hipotetizar sobre traços cognitivos e comportamentais semelhantes em espécies como, por exemplo, humanos e orcas. Em outras palavras: a mesma capacidade, ou semelhante, pode surgir em quase qualquer lugar que seja necessária. Nesse sentido, dois outros termos muito comuns da biologia e que podem ser úteis aqui são os de mecanismo e função: é muito comum que animais alcancem o mesmo fim (função) por meios (mecanismo) diferentes.

Essa ideia se encaixa com as de Darwin há quase dois séculos, sobre como a evolução funciona por meio de descendência comum ou adaptação a circunstâncias semelhantes, havendo portanto uma continuidade entre espécies. Deve-se inclusive destacar que antigamente o pensamento era comparativamente mais receptivo sobre as habilidades cognitivas e linguísticas de outros animais que não os humanos. O próprio Darwin escreveu extensivamente sobre as emoções humanas e de outros animais, e muitos cientistas do século XIX se debruçaram sobre inteligência superior em outros animais.

O pai da evolução, no seu livro A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo, inclusive afirma que a diferença entre a “mente” de outros animais e a mente humana “é uma diferença de grau e não de tipo”. Evolutivamente falando, seria como um milagre se tivéssemos uma habilidade única e sem pegadas evolutivas rastreáveis. A busca pela parcimônia cognitiva (no nosso caso, linguística) frequentemente entra em conflito com a parcimônia evolutiva (ou seja, por termos cautela para dizer que outros animais têm consciência e língua, acabamos não pensando de forma evolutiva), destaca o famoso prima Frans de Waal. Segundo ele, a partir da concepção de mudança gradual entre espécies, pode ser perigoso propor lacunas incomparáveis entre espécies. Como nossa espécie se tornou racional, consciente e dotada de língua se o resto todo do mundo natural, não?

Por isso dissemos lá atrás: talvez o mesmo valha para a língua e as orcas tenham um sistema de comunicação análogo à língua humana, podendo portanto ser possível afirmar que elas também têm língua: elas podem usar mecanismos diferentes para alcançar, de certa forma, a mesma função. Essa linha de pensamento segue também a lógica do conceito de Umwelt, do biólogo e filósofo estoniano Jakob von Uexküll. Para Uexküll, precisamos reconhecer que espécies diferentes, embora habitem o mesmo planeta, na verdade vivem em mundos diferentes, ou em diferentes umwelten. Em outras palavras, como espécies diferentes precisam fazer coisas diferentes para sobreviver, elas desenvolveram uma variedade de estratégias evolutivas para ajudá-las a realizar essas tarefas. Por exemplo, os cães têm um sistema olfativo muito complexo.

Podemos supor que, uma vez que eles têm muito mais tecido sensorial e cerebral dedicado ao olfato do que nós, a experiência dos cachorros com os cheiros está além de nossa imaginação; é qualitativamente diferente da nossa. Assim sendo, embora a gente divida um espaço com um cachorro, perdemos muito do que ele está vivenciando. Cães e humanos vivem em mundos diferentes, ou diferentes umwelten. Então, se quisermos pelo menos entender um pouco como as orcas vivem e se comunicam, precisamos investigar quais informações elas estão obtendo sobre o mundo por meio das características que elas evoluíram em vez de as definirmos a partir da nossa trajetória evolutiva.

Sendo assim, que tal aplicarmos uma outra forma de olhar para o conceito de língua, mais ampla? A partir de uma lógica que, grosso modo, chamamos de sociossemiótica, talvez seja possível afirmar que outros animais além dos humanos, como as orcas, possuem língua. Para tal, deveremos deixar de entendê-la como um sistema sintático, ou seja, um conjunto de regras que define estruturas sintáticas, como de certo modo Chomsky e outras pessoas dentro da linguística e da biologia entendem, ou como uma lista de características já definidas em um todo fechado, como o famoso linguista Charles F. Hockett em um famoso trabalho no qual define quais características um sistema de comunicação precisa ter para ser considerado uma língua: como é de se esperar, Hockett basicamente lista as características mais marcantes das línguas humanas. As orcas passaram por outro processo evolutivo, então talvez pensar em língua dessa forma não seja muito produtivo.

Vamos tentar olhar para essencialmente o que a língua faz e nos ajuda a sobreviver como espécie, de forma a levantar a hipótese de que existem sistemas linguísticos análogos na natureza, afinal espécies diferentes passaram por trajetórias evolutivas diferentes, podendo ser homólogas ou análogas à nossa. Assim sendo, aqui entenderemos língua como um recurso de produção de significados.

Não só isso, esses significados precisando ser construídos de forma social e evoluir para possibilitar os membros de uma cultura a se relacionar socialmente, além de construir as suas experiências individuais e coletivas de realidade, de forma a estruturar essas relações sociais e construções da realidade de forma conjunta no sistema linguístico e de forma integrada ao seu contexto social, ou seja, precisa ser aprendida e desenvolvida em interação. A partir dessa concepção, podemos ser capazes de discutir que língua não é “a nossa grande distinção cognitiva de outras espécies animais”, como afirma o primatólogo Kirsty Graham.

Em outras palavras, partindo dessa concepção de língua, podemos imaginar que outros animais, como as orcas, possuem, sim, língua. Pensando assim, podemos passar a investigar e descrever de uma nova forma os sistemas semióticos que evoluíram na natureza. Reforçamos então que, neste artigo, interpretamos língua consistindo não apenas dos recursos semânticos e muito menos sintáticos que a ela constituem, mas incluindo sobretudo os diversos contextos culturais nos quais esses recursos são usados e as várias orientações sociais e culturais que os falantes trazem para esses contextos.

Sendo assim, o que precisamos definir em seguida é o conceito de “cultura”, citado na nossa definição de língua acima, um termo tão usado no nosso dia-a-dia, porém sobre o qual pouco refletimos profundamente. Vamos lá!


E a cultura?


Cultura aqui será interpretada a partir de dois pontos de vista complementares: 1) cultura como realidade instrumental: como o conjunto de implementações, estatutos de organização social, ideias, costumes e valores – tudo isso servindo ao indivíduo para satisfazer as suas necessidades biológicas, através de cooperação e dentro de um ambiente específico; 2) cultura como mecanismo condicionador: embora a cultura seja um instrumento que usamos para garantir a nossa sobrevivência, também somos moldados por ela. A cultura é sob essa ótica um mecanismo condicionador, que através de treinamentos, transmissão de habilidade, o ensinamento de valores e gostos, molda a nossa psique, anatomia e, inclusive, a forma como usamos a língua!

Ou seja, quando estudamos cultura, nós observamos como as necessidades de um organismo são saciadas sob condições da própria cultura. Dessa forma, percebemos que a organização social e o sistema de comunicação, ambos moldados pela cultura a partir da qual evoluem, são meios indispensáveis para a realização das necessidades mais básicas. Assim, o organismo dentro de cada cultura é treinado para se adaptar a certas condições impostas por ela, moldando-o e adequando-o ao seu ambiente social, ambiental e, em alguns casos, linguístico.

Nesse sentido, achamos necessário analisar o nosso objeto baseado no fato biológico – uma vez que orcas e humanos são, antes de tudo, animais que apresentam necessidades biológicas básicas para a sua sobrevivência, supridas então pelas culturas desses animais –, sobretudo quando se trata de um ambiente social e natural tão diferente do qual estamos acostumados. Deve-se, então, estudar ao mesmo tempo todas as suas necessidades orgânicas quanto às influências ambientais, sempre fazendo referência às reações e compensações culturais a tudo isso. Destacamos que o nosso ponto aqui não é meramente etológico ou biológico: nesse sentido, não estamos preocupados com aspectos necessariamente e apenas anatômicos e fisiológicos das orcas, mas como todos esses elementos são modificados por influências sociais, culturais e linguísticas.


Mas então todo animal tem língua e cultura, é isso? Quais seriam as condições para que uma espécie desenvolva essas duas coisas?


Para entender melhor as necessidades de um organismo como as orcas e as pressões ambientais que motivaram uma evolução social de tamanha complexidade e coesão, podemos nos virar para as observações feitas em pesquisas que interpretam uma série de formas pelas quais um ambiente pode mudar e estimar a que tipos de estratégias evolutivas essa variação pode direcionar.

De forma resumida, em termos evolutivos, há três tipos de ambientes que impactam diretamente nas estratégias evolutivas de uma espécie, propiciando para a seleção natural formas diferentes de controlar esses ambientes: 1) onde a variação normal no ambiente não faz muita diferença para a aptidão; 2) onde a forma física de uma espécie, mas de maneiras que são quase completamente imprevisíveis; 3) onde há mudança, mas acontece de forma relativamente lenta.

Nesse caso, em 1) os animais, de forma geral, confiam apenas em evolução genética para se adaptarem – o caso de fringilídeos de Darwin, copépodes de água doce e algumas espécies de Zygoptera -; em 2) a aprendizagem individual ou algum outro tipo de plasticidade fenotípica, ou seja, a capacidade de um indivíduo modificar o seu fenótipo (o conjunto de características observáveis de um organismo devido à mudanças no ambiente) tende a ser a solução evolutiva – exemplo do pinguim-saltador-da-rocha, que vai variando a massa corporal dele para depender de reservas de energia em períodos de baixa disponibilidade de alimentos; em 3), por fim, onde o aprendizado social aparenta ser a maneira mais eficiente de obter uma adaptação adequada às necessidades dos animais. Portanto, os ambientes do tipo observado e, 3) são onde mais se espera qualquer tipo de comportamento cooperativo e cultural, exemplo dos humanos e, acreditamos, boa parte dos, se não de todos, cetáceos, incluindo as orcas.

Detalhando mais essas informações, podemos nos perguntar quais fatores são relevantes para a adaptação de um animal. Um ponto essencial surge do fato de que todos animais dependem de outras espécies para seu sustento e destaca-se, por exemplo, a variabilidade na abundância de plantas ou animais nos oceanos, podendo ser um problema.

Essa variação é impulsionada, entre outros fatores, pelo clima, geralmente a temperatura. Para além disso, a cada passo acima na cadeia alimentar encontramos cenários mais próximos ao 3) e, por conseguinte, as espécies maiores geralmente têm trajetórias populacionais mais nessa direção, assim como os mamíferos quando comparados com outros vertebrados. Portanto, predadores de alto nível trófico (ou seja, que se localizam no topo da cadeia alimentar) em grandes espécies de mamíferos podem viver em ambientes dessa natureza, em termos de disponibilidade de suas presas e, consequentemente, em condições que potencialmente favoreçam a aprendizagem social, cultural e, possivelmente, linguística.

Para além da variedade no ambiente físico e biológico, para alguns animais a variação no ambiente social pode ser tão importante quanto. Nessas espécies, o conhecimento adquirido dos pais (no caso das orcas, mais especificamente, das mães) e membros do grupo em que um animal vive são vitais para superar cenários imprevisíveis.

Portanto, o aprendizado social é essencial quando confrontado com variações no ambiente social, e esse é principalmente o caso de animais cuja vida social é intensa e complexa, animais como humanos, elefantes e orcas. Os cetáceos, especialmente os odontoceti, a exemplo das outras duas espécies citadas, também possuem cérebros grandes e complexos, que podem ter evoluído para lidar de forma satisfatória com as muitas informações aprendidas socialmente.

De forma específica, o cérebro de uma orca adulta é o cérebro que apresenta maior  revestimento convoluto ou dobramento cortical, o que indica uma cognição bastante elevada. Além disso, o prosencéfalo, área responsável por controlar, por exemplo, as emoções, compreende uma proporção maior do volume total do cérebro de uma orca do que o do prosencéfalo humano. O neocórtex é também altamente desenvolvido e de tamanho relativo superior, com funções relacionadas ao controle dos movimentos voluntários e funções sensoriais, sobretudo em áreas de processamento de emoções e cognição social.

Podemos destacar três áreas do cérebro das orcas que, tanto em tamanho absoluto como relativo, são maiores do que na constituição do cérebro humano: o opérculo que envolve o lobo da ínsula, o próprio lobo da ínsula e, por fim, o lobo límbico. O opérculo tem relação com a fala em humanos, enquanto a ínsula está associada com a capacidade de ouvir e processar sons. Hipotetiza-se que parte do opérculo nas orcas inerva o trato respiratório nasal, origem da vocalização desses animais, uma vez que vários sons são modificados por estruturas associadas ao controle do fluxo de ar através da região nasal. Dessa forma, acredita-se que esse componente desempenhe  uma função semelhante à do opérculo na fala humana. As evidências apontaram para essa semelhança, dada a complexidade e variação acústica dentro do ecótipo residente.

Por sua vez, o lobo límbico, que em humanos está associado, entre outras coisas, ao processamento emocional e à formação de memórias, é extremamente evoluído nas orcas, muito maior e mais complexo do que no cérebro humano. Além de um ampliamento no sistema límbico das orcas, a arquitetura celular no cérebro delas também aponta para uma vida emocional mais complexa. Em números relativos, as células fusiformes, associadas ao processamento da organização social e empatia, são encontradas em maior quantidade nas orcas do que em humanos.

Figura 1: Cérebro de uma orca e algumas de suas características. Fonte: Imagem adaptada da palestra de Marino (2019) disponível em https://www.youtube.com/watch?v=eaCaPwbKWSo

Figura 2: comparação do tamanho absoluto dos cérebros de três espécies, da esquerda para direita: orca (≅ 7 kg), golfinho nariz-de-garrafa (≅ 1.8 kg) e ser humano (≅ 1.5 kg), respectivamente. Fonte: Editada da palestra de Marino (2019) disponível em https://www.youtube.com/watch?v=eaCaPwbKWSo

Pode-se concluir, portanto, que, uma vez que a aprendizagem social (fator essencial para a evolução linguística) ou, em outras palavras, cultura é favorecida em ambientes como 3), e os ambientes dessa natureza são aqueles compostos por populações de animais grandes, que se alimentam em níveis tróficos elevados, vivem no oceano ou são mamíferos, a aprendizagem social e a cultura devem ser favorecidas principalmente entre predadores e posicionados no topo da cadeia alimentar, sobretudo quando a vida social também é importante e imprevisível para eles. Em outras palavras, mamíferos marinhos, em destaque as orcas, tornam-se as espécies mais prováveis de seguirem esse caminho evolutivo-cultural.

Discutido tudo isso, podemos perceber que o oceano é um habitat onde estilos de vida cooperativos entre mamíferos é essencial. Os recursos do mundo aquático variam em escalas de espaço e tempo muito grandes e, para lidar com tamanha variedade, o conhecimento acumulado de outros indivíduos parece ser um recurso de grande importância. Para fazer um bom uso desse acervo de conhecimentos, um animal precisa de vários atributos: uma estrutura social com laços importantes, uma vida longa e uma capacidade cognitiva sofisticada, além de um sistema de comunicação complexo. As orcas exibem todos esses atributos.


Vai um linguista aí?


A partir de uma perspectiva com foco na capacidade de significar, em vez de, por exemplo, na aquisição da sintaxe, E se Free Willy não fosse ficção? A língua e a cultura das orcas espera incentivar linhas de pensamento que não tenham como foco perguntas sobre se animal X ou Y tem língua (humana), mas sim como e até que ponto outros animais além dos humanos usam um sistema semiótico para construir e representar o mundo deles.

Para isso, precisamos focar na cultura – específica e única de cada espécie, evoluindo a partir de uma trajetória evolutiva também específica e única – em que cada sistema de comunicação é usado. Uma abordagem linguística nos termos que propomos aqui pode ser essencial para compreendermos a evolução linguística e cultural dentro e fora da nossa espécie, além de nos ajudar a refletir sobre a nossa e a posição de outros animais no mundo.

Uma outra possibilidade, cada vez mais factível e promissora, é a de conseguirmos, até onde for possível, compreender como outras espécies se comunicam entre si e, para isso, inevitavelmente precisaremos ter conhecimento sobre as estruturas culturais. sociais e situacionais de outros animais, uma vez que língua e cultura são inseparáveis.

Atualmente, já temos uma iniciativa nessa direção: o PROJECT CETI (Cetacean Translation Initiative ou Iniciativa de Tradução de Cetáceos) reúne um grupo multidisciplinar de pesquisadoras e pesquisadores de ponta que pretende traduzir a língua das baleias cachalote em até 5 anos. Nikola Tesla, famoso inventor, dizia que, para desvendarmos os segredos do universo, precisamos “pensar em termos de energia, frequência e vibração”: talvez nunca estivemos tão perto de desvendar os segredos do universo.


Beleza. E daí?


Recentemente trabalhos sobre os sistemas semióticos de outros animais além dos humanos começaram a surgir por meio de uma perspectiva sociossemiótica, de forma a demonstrar como uma investigação a partir desse prisma pode ser frutífera para a interpretação dos sistemas semióticos de outras espécies animais e incentivar mais pesquisas semelhantes: abelhas, pássaros, bonobos, macacos e chimpanzés já foram estudados. Nesses trabalhos, há o consenso de que o estudo da capacidade semiótica de outras espécies pode ser importante para compreendermos melhor os processos evolutivos pelos quais a língua humana evoluiu e os princípios pelos quais ela funciona. Ou seja: para entendermos de verdade o que é a nossa língua, talvez precisemos estudar as línguas de outros animais!

Além disso, orcas residentes, mais especificamente aquelas conhecidas como residentes do sul, estão em risco de extinção – atualmente existem por volta de 74 –, devido, entre outros fatores, à escassez de presas (principalmente salmão), poluição das águas em que vivem e poluição sonora causada por barcos e navios.

Sem comida, água limpa e um lar confortável e saudável, podemos perder uma comunidade única de orcas. E isso deveria preocupar a todos nós. Cetáceos em geral desempenham funções essenciais no ecossistema marinho (eles são chamados de “engenheiros do ecossistema”) e o desaparecimento de espécies pode trazer impactos trágicos e incontornáveis. São espécies-chave que, se desaparecerem, vão levar ao desaparecimento de várias outras espécies, inclusive afetando as nossas vidas aqui sobre o solo.

Por exemplo, como dissemos antes, orcas são predadoras de topo e se alimentam de peixes: elas reduzem as populações desses peixes a níveis intermediários, de forma a moderar a competição entre essas espécies. Isso impede que alguma delas domine o ambiente e reduza a biodiversidade.

Outro fator relevante decorre do que acontece quando as orcas e outros cetáceos não estão mais vivos: a morte de um cetáceo significa que um corpo enorme acaba indo para o fundo do oceano e uma carcaça de cetáceo pode armazenar uma quantidade enorme de carbono, principalmente entre as espécies maiores.

Além disso, a carcaça passa a servir como habitat e alimento para uma grande variedade, possivelmente centenas, de outros organismos que vivem a partir de um único animal morto. Outro motivo para que a gente se preocupe com as orcas advém do fato de que elas são indicadoras naturais da variabilidade e da degradação ambiental, nos permitindo antecipar e tomar atitudes antes que seja tarde demais.

Ainda, elas compõem o que chamamos de “fauna carismática”: espécies-bandeira e icônicas, que, a partir da fascinação que causam em humanos, nos incentivam a tomar ações de conservação que consequentemente beneficiam uma vasta gama de outras espécies. Financeiramente, a perda de orcas e outros cetáceos também pode ser gigantesca: só em 2010, a atração turística de observação de cetáceos (whale watching), comum inclusive aqui no Brasil, movimentou um total de 2,5 bilhões de dólares (12,73 bilhões de reais na cotação atual) e 19,000 empregos! Perder as orcas residentes do sul, parte do grupo de longe mais estudado e famoso de orcas, seria uma perda econômica irreparável.

Por fim, tendo em vista que grupos de orcas aparentam ter culturas diferentes, consideramos importante ouvir o aviso de Toshio Kasuya, cientista japonês especialista no estudo de cetáceos, que argumenta que, dentro da problemática da conservação, devemos considerar a diversidade cultural como um elemento da biodiversidade.

Kasuya entende que não devemos equiparar “ausência de evidência com evidência de ausência”. Assim, entendemos que o equilíbrio das evidências em qualquer área de incerteza científica deve sempre incorporar considerações sobre os riscos que podemos correr caso estejamos errados, que podem ser graves. Nesse caso, a conservação da possível diversidade cultural das orcas pode ser essencial para que não seja preciso correr o risco de perder uma cultura inteira, pois, caso seja perdida e realmente seja cultura, será muito difícil de ser recuperada.

Por isso tudo e muito mais, precisamos cuidar do ambiente e de outras espécies. Precisamos educar as novas gerações a pensar sobre como diariamente impactamos o mundo em que vivemos e o que podemos fazer. Precisamos pressionar e exigir das autoridades responsáveis que tomem medidas para reduzir emissões de carbono no ar e contaminantes nas águas do mundo, bem como a proposta de políticas que realmente protejam espécies e os ambientes em que cada uma vive, sobretudo daquelas que correm risco de extinção e cuja perda pode afetar o nosso mundo de forma negativamente drástica. É uma questão de preservação, cultural e da vida. Mas não apenas das orcas: nossa também.


Recomendação para se aprofundar sobre o assunto


O serviço de streaming Disney+ recentemente lançou uma série documental chamada O Segredo das Baleias. Cada episódio fala sobre a cultura de uma espécie diferente de cetáceo (à grosso modo, baleias, golfinhos e botos)  e o primeiro é exatamente sobre orcas! Assista ao trailer aqui. Divirta-se!