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Série: E se Free Willy não fosse ficção? A língua e a cultura das orcas: Parte 1 – Orcas: quem são, onde vivem, do que se alimentam?

Este artigo é parte de uma série composta de 3 partes. A primeira é esta que você está lendo agora.

Quem nunca assistiu a um filme, leu um livro ou viu um desenho em que outros animais, além dos humanos, também usam a língua humana e falam? Existem vários exemplos disso: Stuart Little, Babe, Garfield, Família Dinossauros e Scooby Doo estão entre alguns dos mais famosos, mas poderíamos passar o dia inteiro citando as tantas vezes em que usamos a nossa imaginação para criar outros animais falantes. Aliás, quase toda pessoa que tem ou já teve um bichinho de estimação sabe o que é tentar se comunicar com outra espécie – em alguns casos, certos donos e donas diriam que conseguem, sim, estabelecer um certo grau de comunicação com o seu cachorro ou gato, por exemplo. Inclusive, algumas pesquisas mostram que cachorros, até certo ponto, realmente conseguem nos compreender. Apesar disso tudo, a questão nos parece sem sentido e a resposta, óbvia: animais não falam, ou, em outras palavras, não têm língua, certo? Afinal, eles não respondem às nossas perguntas, parecem não entender quando reclamamos ou pedimos algo e nem, obviamente, conversam com a gente. Logo, podemos categoricamente afirmar que outros animais não têm língua. Certo? E cultura? Até parece, né.


Mas será mesmo?


Durante os anos 1990, um dos filmes que marcou a infância de muitas pessoas foi Free Willy, a famosa quadrilogia sobre uma orca que tenta escapar de um parque aquático com a ajuda de seu amigo humano, o menino Jesse. Nos filmes, assim como no desenho, Willy e Jesse conseguem tranquilamente conversar um com o outro e estabelecem uma amizade muito forte. Tudo dentro do mundo ficcional, claro. 

Mas, imagine com a gente: e se Free Willy não fosse ficção? Ou, melhor dizendo, e se algo parecido existisse? Aqui no Vai Um Linguista Aí?, tentaremos, em uma série de três partes, viajar para um mundo mais ou menos parecido com o de Willy e Jesse, onde existe a possibilidade de uma outra espécie realmente ter língua e cultura: o nosso mundo real. 

Desafiaremos, com base em estudos, sobretudo da linguística e biologia, a concepção amplamente aceita de que animais não têm língua e usaremos orcas, as temidas baleias assassinas (embora elas não sejam baleias. Orcas são golfinhos gigantes!), como estudo de caso. Ainda, falaremos sobre outro tema controverso, o de cultura em outros animais que não os humanos. Para isso, nesta primeira parte da série, apresentaremos as orcas: quem são, como é a sociedade delas e como evoluíram. Contudo, já adiantamos: diferente de Willy, orcas não têm língua nem cultura humana; mas talvez elas possuam algo mais ou menos parecido. Vamos conhecer a língua e a cultura delas?


Orcas: quem são, onde vivem, do que se alimentam?


Nesta seção aprenderemos sobre alguns dos tipos diferentes de orcas que existem no mundo.

A primeira coisa que precisamos ter em mente é que, em grande parte, as relações entre organismos dependem do habitat em que vivem. Quem passa um tempo observando as orcas percebe, por exemplo, que populações diferentes não se comportam, se alimentam e, de forma mais surpreendente, se comunicam da mesma forma ao longo da distribuição da espécie pelos oceanos e mares do mundo. 

Para tentar descrever essa gama de variedades, um dos termos essenciais é o de ecótipo, por meio do qual entendemos que essas divergências são vistas como resultado de seleção natural de pressões seletivas distintas entre populações separadas, causando consequentemente variações específicas em cada uma delas. Ou seja: animais vão ficando diferentes com o tempo porque eles vivem e evoluem em ambientes diferentes, bem como enfrentam obstáculos diferentes. Dessa forma, ecótipo pode ser definido como uma variante geográfica de uma mesma espécie, geneticamente distinta e portanto adaptada às condições específicas do ambiente que habita. 

As orcas apresentam uma quantidade elevada de ecótipos dentro da espécie. Estão entre os cetáceos (baleias, golfinhos e botos) mais cosmopolitas, com ocorrências registradas em todos os oceanos e em muitos mares fechados (tipo de mar que não tem nenhuma ligação com os oceanos do mundo. Oceano e mar não são a mesma coisa!). Os cetáceos  podem ser divididos em duas categorias de mamíferos marinhos: os cetáceos sem dentes (os misticetos, também conhecidos como as baleias de verdade) e com dentes (os odontocetos). As orcas pertencem aos odontocetos, e são eles que compõem as sociedades mais complexas dos oceanos e mares. 

As orcas são encontradas em diferentes temperaturas e profundidades, nas águas polares e tropicais, embora sejam observadas sobretudo em regiões com temperaturas mais geladas. Ecótipos são diferentes em uma série de características: comportamento, dieta, estruturas sociais, repertórios vocais, morfologia (em outras palavras, a aparência), entre outros. Por isso, tendem a ser reprodutivamente isolados e geneticamente distintos. Exemplos de alguns ecótipos de orcas seguem abaixo:

Figura 1: Os diferentes ecótipos das orcas. Fonte: http://www.ukogorter.com/ 

 

Entre essa vasta gama de ecótipos existentes, as orcas do hemisfério norte estão entre as mais estudadas. Nessa região, são reconhecidos atualmente três tipos diferentes: orcas residentes, transitórias e oceânicas. Debates acerca dessa classificação, cunhada pela primeira vez por meio de pesquisas na costa oeste do Canadá e dos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980, ainda perduram, uma vez que as distinções entre cada ecótipo são grandes o bastante a ponto de suscitar discussões se são realmente ecótipos ou raças, sub-raças ou até mesmo espécies diferentes. 

Em 2008, a International Union for Conservation of Nature (IUCN), uma organização dedicada à conservação da natureza,  relatou: “A taxonomia deste gênero precisa claramente de revisão, e é provável que orcas sejam divididas em várias espécies diferentes ou pelo menos subespécies nos próximos anos”.

O que é mais impressionante é que, em muitas regiões do mundo, a área em que diferentes ecótipos de orcas vivem se sobrepõem: ou seja, dividem as mesmas águas! Como já foi dito, ecótipos diferentes não interagem, além de apresentar uma série de diferenças comportamentais e vocais. Portanto, no caso das orcas, parece haver outros fatores, além da variação de habitat, direcionando a evolução e possível especiação (divisão entre espécies distintas) desses animais. Afinal, embora compartilhem a mesma região geográfica, são completamente diferentes umas das outras. O que isso pode significar? Por ora, um breve resumo de cada um dos três ecótipos mais conhecidos segue abaixo:

Residentes: as dietas das orcas residentes consistem principalmente de peixes. Vivem em agrupamentos sociais complexos e em uma organização social incomum até dentro da espécie humana, com os seus membros permanecendo a vida inteira ao lado de sua família, dentro da unidade social básica desses animais: a unidade matrilinear ou família. Ademais, suas sociedades são ainda divididas em outras camadas de organização social, a saber: grupo, clã e comunidade, que serão explicadas mais à frente. O nome “residente” foi cunhado pela observação de que as orcas desse ecótipo visitam as mesmas áreas de forma consistente, mas as dinâmicas de movimentação dela são menos estáveis que o termo indica e, por isso, muitas pessoas já adotam o termo “orcas que se alimentam de peixes”. Estão entre o ecótipo mais estudado dentro de toda a espécie, sobretudo nas costas norte-americana e canadense. São animais extremamente vocais, como veremos adiante. 

Transitórias ou de Bigg: o segundo ecótipo mais estudado, as orcas transitórias se alimentam de mamíferos marinhos. Em contraste com as residentes, geralmente viajam e vivem em grupos menores, e os seus laços e organização social são menos complexos. As transitórias também têm sido cada vez mais chamadas de orcas de Bigg em homenagem ao cientista Michael Bigg, um dos pioneiros no estudo sobre cetáceos, sobretudo sobre orcas, e principal responsável por desenvolver a técnica de foto-identificação para o reconhecimento de orcas específicas, baseado em marcas individuais. São relativamente menos vocais que as residentes, principalmente quando estão caçando, mas também como um todo. Evidências de pesquisas anteriores apontam que um dos motivos por trás disso se dá pelo fato da melhor audição das suas presas (mamíferos, ao passo que residentes se alimentam de peixes), que podem ouvir as vocalizações das transitórias e, assim, escapar de possíveis investidas.

Oceânicas: como o nome sugere, as orcas desse ecótipo viajam para longe da costa e se alimentam de espécies como tubarões. Seus grupos tendem a ser grandes, consistindo de 20-75 membros, sendo vistos até em um número de 200 orcas. Pouco ainda se sabe sobre elas.

Orcas residentes, transitórias e oceânicas podem ser diferenciadas visualmente por meio de alguns critérios. A imagem abaixo ilustra essas distinções:

Figura 2: Diferenças entre os ecótipos residentes, transitórios e oceânicos. Nela percebemos as principais diferenças entre os ecótipos: formato e posicionamento das barbatanas dorsais, bem como das selas (as marcas brancas nas costas das orcas). Fonte: Imagem retirada de Ford, Ellis, Balcomb (2000).

Sendo assim, nesta parte 1 nos focaremos nas orcas residentes, por dois motivos: 1) são animais mais sociais e cooperativos, além de estarem entre os mais estudados, propiciando assim uma oportunidade potencialmente maior para o estudo de fenômenos parecidos ao que consideramos cultura e consequentemente sistemas de comunicação mais complexos como a língua humana, uma vez que pesquisas apontam que cultura pressupõe cooperação e qualquer língua tem a sua natureza definida pela cultura, como veremos adiante.

2) possivelmente em decorrência dessa maior complexidade social dentro das residentes, pesquisas anteriores identificaram que grupos dessa espécie, dentro de diferentes camadas da sua organização social e portanto em diferentes graus, apresentam dialetos específicos, cumprindo aparentemente uma série de funções e sensíveis à variáveis sobretudo sociais, além de acusticamente sofisticados. Dessa forma, vamos partir do pressuposto que as orcas residentes evoluíram um sistema comunicativo mais complexo, apresentando na sua complexidade algumas características comparáveis com a língua humana.


Sociedades soberanas


Outro ponto importante que precisamos entender das orcas é como funciona a sociedade (e, portanto, parte da cultura) delas. Como base para este texto, utilizaremos informações sobretudo dos animais estudados nas regiões dos Estados Unidos e Canadá, onde pesquisas mais longas e detalhadas têm sido realizadas. Contudo, trabalhos anteriores já demonstraram que boa parte das questões que aqui discorreremos, como a organização social e variedade de dialetos entre esses animais, são também exibidas em orcas de outras localizações. 

Nesse sentido, cabe destacar que existe uma relação indissociável entre língua, cultura e sociedade. Dessa forma, para compreendermos como uma língua funciona, precisamos entender como uma determinada sociedade se estrutura, pois a língua atua para simbolizar a sociedade a que pertence: em outras palavras, a língua dá forma, expressa a cultura (não à toa línguas são diferentes!). Por isso, antes de tudo, precisamos aprender sobre como a sociedade das orcas funciona, para então nos debruçarmos sobre a língua delas – afinal, as línguas evoluíram e evoluem para suprir as necessidades dos seus falantes. Como deve ser o caso das orcas?

Primeiramente, acredita-se que a inteligência comunal (isto é, uma inteligência baseada na complexidade social) altamente sofisticada das orcas, refletida nas suas organizações sociais, seja o segredo para a evolução da espécie em superpredadoras – animais que se localizam no topo da cadeia alimentar, também chamados de predadores alfa ou de topo de cadeia. Animais desse tipo controlam o volume das populações de suas presas, causando um efeito dominó por todas as comunidades ecológicas relacionadas e, portanto, desempenham um papel essencial na promoção da biodiversidade do local onde vivem. 

Um fator que parece ser determinante nesse domínio das orcas vem do fato que elas aprendem juntas, as mais velhas ensinando as mais novas, o que as possibilitou tirar o máximo de proveito das suas características físicas: grandes e rápidas, com mandíbulas e dentes poderosos, reinam soberanas e sem ameaças naturais em um ambiente que conta com animais como tubarões e outros cetáceos ainda maiores – para aquelas pessoas que achavam que o manda-chuva do mundo aquático era o tubarão, se enganou: eles na verdade fazem parte do cardápio de alguns ecótipos de orcas, como vimos no caso das oceânicas.

A organização social das orcas se assemelha à de muitos cetáceos, embora tenha as suas particularidades. Praticamente de forma unânime, as sociedades dos odontocetos (os cetáceos com dentes, como explicamos anteriormente) giram em torno da mãe, em uma constituição chamada de “matrilinear”, e as orcas não são exceção. Nas unidades matrilineares das orcas residentes, vivem mães com seus filhos e netos, com até cinco gerações coexistindo. 

Com destaque às orcas residentes, podemos encontrar um sistema social organizado hierarquicamente e o mais rígido entre todas as espécies matrilineares. Tanto os machos quanto as fêmeas passam a vida em sua unidade social natal (ou seja, a família), sendo, portanto, completamente matrilineares em estrutura. Assim, elas se deslocam, socializam e caçam juntas com as mesmas orcas durante toda a vida, orcas que são, na unidade mais básica da estrutura social, seus parentes.

Para além disso, há outras camadas na organização social das orcas residentes: as unidades matrilineares que passam mais da metade do tempo juntas e compartilham um certo nível de ancestralidade fazem parte do mesmo grupo. Grupos consistem de uma a três unidades matrilineares observadas juntas em 50% ou mais dos dias de observação. Grupos têm repertórios vocais únicos e pesquisas já documentaram diversos níveis de compartilhamento de tipos de vocalizações, ou dialetos, entre os grupos: certos grupos compartilham várias vocalizações, enquanto outros apresentam repertórios totalmente diferentes, nesse caso pertencendo a clãs distintos. 

Cada conjunto de grupos que compartilha pelo menos um tipo de vocalização é denominado um clã, sendo este portanto sobretudo definido em termos das tradições acústicas dos grupos. Por fim, clãs que interagem de forma relativamente frequente constituem uma comunidade. Comunidades com repertórios completamente diferentes, mesmo habitando a mesma região geográfica, não interagem. 

Os acasalamentos que ocorrem entre orcas residentes seguem uma lógica social e biológica. Os parceiros são geralmente membros de clãs diferentes, porém da mesma comunidade, exceto em regiões onde há a presença de apenas um clã por comunidade. Pesquisas anteriores apontam que as orcas residentes decidem com que animal acasalar com base nas suas semelhanças e diferenças acústicas. Acredita-se que a lógica seja basicamente a seguinte: 1) os animais precisam fazer parte da mesma comunidade e, portanto, compartilhar uma parte do repertório acústico deles. 2) Isso se dá a fim de evitar consanguinidade, relacionando-se apenas com aqueles o mais distantes possíveis na organização social, a fim de promover diversidade genética. Aparentemente a vocalização das orcas atua como uma espécie de marcador étnico/cultural e, através das suas variações e diferenças acústicas, esses animais decidem com que membro da comunidade ter a sua prole.

Assim, uma orca nasce e vive a vida toda dentro da sua unidade matrilinear ou família, a maioria das quais contém de dois a dez indivíduos. Essa unidade matrilinear é parte de um grupo, com média de uma a três famílias, sendo parte de um clã contendo de dois a dez grupos que compartilham dialetos e hábitos semelhantes. Os clãs interagem e formam uma comunidade, geralmente de um a três clãs.

Figura 3: A organização social das orcas

Uma orca residente permanece no mesmo grupo, clã e comunidade por toda a sua vida, seja macho ou fêmea. Filhas adultas que têm suas próprias proles podem se separar de sua mãe até certo ponto, mas geralmente são encontradas viajando nas proximidades. É de se notar como este sistema é incomum, mesmo entre mamíferos, sejam eles terrestres ou marinhos – fora das orcas, a regra é que machos ou fêmeas se dispersem de suas mães depois do amadurecimento. 

Sobrepostos nas unidades matrilineares, grupos, clãs, comunidades e ecótipos das orcas, encontramos padrões de comportamento característicos: cada camada da organização social vive de uma forma específica, se alimentando, interagindo e se comunicando cada uma à sua maneira. Pesquisas sobre cultura animal hipotetizam que a maior parte dessa variação de comportamento seja decorrente da importância da variação cultural entre esses animais. 

De forma rápida, cabe destacar que o aprendizado vocal das orcas parece ser cultural: se uma orca filhote for transferida para outra região, ela crescerá e aprenderá o repertório de sons que é usado entre as orcas da nova região. Por sua vez, se uma orca adulta for transferida para viver com orcas de outras regiões, ela sofrerá para se adaptar, comunicar e até viver pacificamente com essas outras orcas. Além disso, os hábitos alimentares, bem como as estratégias de caça, também parecem ser culturais: por exemplo, uma orca que passou a vida toda se alimentando de peixes, se transferida para viver com transitórias (ou vice-versa) e alimentada com alimentos com os quais não se habituou a comer, levará muito tempo para aceitar a dieta, se aceitar. Existem casos de orcas que se recusaram a adotar a nova alimentação e, infelizmente, morreram de fome. Ou seja, tanto quanto no caso dos dialetos como no da dieta, não é uma questão genética, mas sim de aprendizado, uma questão simbólica!


Como e por que elas conseguem fazer tudo isso?


A fim de entender as pressões seletivas e culturais que levaram a organização social das orcas para essa direção, precisamos também considerar as orcas como seres biológicos e as suas necessidades mais básicas, a fim de entender o caminho evolutivo-cultural necessário para se chegar ao nível de complexidade social que acabamos de descrever. Primeiramente, precisamos reafirmar o que já foi dito: relações entre organismos dependem do habitat em que vivem. Diferente dos mamíferos terrestres, como nós, humanos, orcas vivem em um espaço fluido e tridimensional: os oceanos e os mares do mundo. 

As implicações disso são inúmeras. Por exemplo, nenhum animal do oceano defende territórios geograficamente definidos, dificultando até mesmo a proteção de presas. Ou seja, o ambiente aquático tende a exibir dinâmicas de caça completamente diferentes daquelas vistas no ambiente terrestre: caçadores marinhos se envolvem em uma disputa de quem consegue obter o máximo de comida em menor tempo em vez de uma competição em que apenas um competidor obtém os alimentos. Nesse tipo de situação, a ênfase muda dos próprios competidores para os recursos e, assim, espera-se menos antagonismo entre membros da mesma espécie.

Outra diferença marcante entre a vida terrestre e a marinha, sobretudo para mamíferos marinhos, surge do fato que estes correm riscos para realizar as tarefas mais básicas de qualquer organismo, como respirar. Ao passo que mamíferos terrestres dispõem de estruturas como árvores e tocas para proteger a sua prole, não há nada semelhante no oceano e, por isso, cetáceos dão à luz uma prole precoce, capaz de nadar imediatamente após o nascimento para poder seguir a sua mãe pelo oceano. Dessa forma, para um cetáceo, sem lugares para se esconder ou se proteger, a única fonte confiável de segurança são outros cetáceos. 

Assim, acredita-se, os cetáceos tornaram-se muito sociais, marcadamente entre os animais marinhos com os maiores grupos, à medida que vivem expostos nas águas em que vivem. Richard Connor, biólogo que estuda golfinhos (orcas pertencem à família dos golfinhos!) há décadas, afirma: “Talvez nenhum outro grupo de mamíferos tenha evoluído em um ambiente tão desprovido de refúgios de predadores. Muitos cetáceos, especialmente espécies menores de oceano aberto, não têm nada para se esconder atrás, exceto uns aos outros”. 

A reprodução nos cetáceos também se destaca dentro dos oceanos. Uma fêmea dá à luz um filhote a cada um a cinco anos, enquanto alguns de seus peixes competidores desovam milhões de ovos por ano. Além disso, comparativamente levam muito mais tempo para amadurecer sexualmente, com as orcas entrando no seu período reprodutivo apenas a partir dos 7 anos, podendo amadurecer completamente apenas a partir dos 16. Portanto, os jovens cetáceos são preciosos e, por isso, são vigiados de perto, tanto pelas suas mães como por outros membros de seus grupos sociais, e constantemente alimentados, principalmente por meio da amamentação. 

Consequentemente, um jovem cetáceo torna-se parte da rede social de sua comunidade, muitas vezes uma parte central dela e, nesse período, tem várias oportunidades para aprender socialmente o que é ser o indivíduo de uma determinada unidade matrilinear, grupo, clã e comunidade. Aprende dentro do seu grupo como deve se comportar, do que deve se alimentar e até como deve se comunicar. Existe inclusive o famoso exemplo da orca Keiko, a estrela do filme Free Willy. Keiko foi capturado pela indústria do entretenimento desde muito cedo, não teve a oportunidade de ser enculturado (ou seja, aprender o seu dialeto, hábitos alimentares, estratégias de caça etc) e, quando devolvido ao oceano, não conseguiu ter uma vida funcional, não sendo capaz de se alimentar sem a ajuda de um humano instrutor e nem de se comunicar com os membros de sua espécie, lembrando de certa forma o exemplo das crianças selvagens humanas. Existe, inclusive, um documentário contando a história de Keiko.

Por fim, devemos destacar que as orcas estão entre as raras espécies que desenvolvem menopausa durante a vida: orcas fêmeas geralmente param de reproduzir a partir dos 40 anos, mas continuam ativas dentro das suas comunidades, vivendo por até mais de 100 anos. Pesquisas hipotetizam que esse longo período pós-reprodutivo se deve à importância das fêmeas mais velhas como repertórios de conhecimento cultural e ecológico, sem as quais já se comprovou ter um efeito extremamente grave para a sobrevivência de sua família, sobretudo dos machos: é o que chamamos de “Hipótese da Avó”, embora elas sejam essenciais sobretudo para os seus filhos e filhas. Thomas White, filósofo que se debruça sobre a questão da cultura em animais, sugere que “os golfinhos podem precisar dessa rede de relacionamentos muito mais do que os humanos”.


Famílias, dialetos e hábitos


Por causa disso tudo, as orcas se tornaram altamente sociais e com um sistema de comunicação complexo, que reflete inclusive o grupo social a que um animal pertence por meio dos dialetos. Além disso, elas têm hábitos de comportamento que parecem ser específicos do grupo cultural a que pertencem, incluindo dietas e estratégias de caça específicas. Com o tempo e a partir de todo esse cenário complexo, as orcas evoluíram três tipos diferentes de sons: ecolocalização, assobios e as já citadas chamadas pulsadas.

Na segunda parte da série E se Free Willy não fosse ficção? A língua e a cultura das orcas, aprenderemos então sobre como as orcas se comunicam. Uma prévia: orcas ecolocalizam como morcegos, usam assobios como língua franca para se comunicar com orcas que possuem dialetos diferentes e, por fim, as suas chamadas pulsadas, além de serem marcadores étnico-culturais, fazem muito mais! Quem disse que Free Willy era só ficção?

Esperamos por você!