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O que a música e a gramática podem ter em comum?

Em nossos artigos do “Vai um linguísta aí?” (confira) estamos aprendendo como a língua funciona em diferentes aspectos ou, maneiras de olharmos para ela: a língua enquanto texto; contexto; gênero; registro; gramática; propriedades; etc. Mas e quanto às outras linguagens que utilizamos no dia-a-dia? Também podem ser estudadas da mesma maneira? Possuem propriedades minimamente parecidas? Neste texto, tentaremos descobrir se uma forma de linguagem muito popular, a música, pode se assemelhar ao sistema da língua.

Estudar a língua e seu funcionamento pode ajudar as pessoas a escrever uma ótima redação do ENEM ou elaborar um argumento convincente em um debate. Da mesma forma, estudar a música e seu funcionamento pode ajudar alguém que está aprendendo um instrumento a saber quais acordes tocar em uma música mesmo antes mesmo de começar a aprendê-la, simplesmente a partir de seu tom e dos acordes nele compreendidos (mais detalhes disso adiante).

Além disso, o estudo da música, numa perspectiva parecida com a da língua, pode facilitar o estudo do linguista se ele estiver, por exemplo, lidando com um objeto de estudo no qual ocorrem tanto a linguagem verbal quanto a linguagem da música, como uma música com letra e melodia ou um filme, onde custuma haver uma música instrumental tocando de fundo sob os diálogos.

Nesses casos, o significado só poderia ser investigado se o linguista levar em consideração os dois tipo de linguagem que estão ocorrendo e significando de maneira interligada – língua e música. Afinal, se apenas a língua fosse relevante para produzir o sentido que o diretor de um filme planejou, não seria necessário incluir uma música de fundo. Talvez fosse importante, então que, realizassemos uma análise dupla!

Em suma, estudar o funcionamento das linguagens que usamos, ocorrendo juntas ou não, pode nos ajudar a entender melhor os significados do nosso cotidiano ou mesmo significar de maneira mais eficiente quando for necessário (compor uma música ou escrever uma redação). Diante disso, ao longo de nosso percurso, vamos utilizar ensinamentos que se encontram em artigos anteriores de nosso site, aproveitando para relembrá-los.


O que são sistemas semióticos?


São todos os recursos desenvolvemos, ao longo de nossa existência como espécie, para gerar significado. Podemos nos comunicar e expressar nossa identidade e valores da sociedade através de recursos semióticos com os quais simbolizamos diversos significados. Para descrever um sistema simples, como os semáforos, precisamos apenas de um modelo de dois níveis, o da expressão (as cores) e o do conteúdo (seu significado), como mostrado na Figura 1 abaixo. Os semáforos também mostram que os sistemas semióticos são estabelecidos por convenção social, como se fosse um “acordo mútuo” entre todo mundo para obedecer àqueles significados e não haver confusão.

Figura 1: semáforo e seu conteúdo e expressão

Os sistemas semióticos de dois níveis, como esse, são surpreendentemente comuns na vida cotidiana. Vejamos outros exemplos:

Tabela 1: exemplos de sistemas de dois níveis

Uma vez que duas ou mais pessoas dominam a mesma linguagem, com um grau de domínio mínimo, elas passam a trocar mais ou menos os mesmos significados, como sons, padrões gráficos ou imagéticos, etc. Logo, são capazes de se entenderem, compartilhar e gerar mais significados ainda na interação.


Acúmulo de significado


Como vimos no artigo “Que, tecido, se eleva por si: Como a língua se transforma em texto?”, a capacidade da língua de relacionar significados para produzir um significado maior, ou “macro-significado”, é conhecida como “acúmulo de significado”.

Para ilustrar, o termo linguístico “casa” significa:

‘substantivo; nome de um objeto; um lugar que as pessoas moram’.

Já o item linguístico ‘azul’ tem o significado de:

‘adjetivo; qualidade de um objeto; uma cor parecida com o céu, ou com a água do mar’.

Juntando os dois significados, teremos:

‘casa azul’.

Percebemos então que os dois significados, de ‘casa’ e de ‘azul’, foram acumulados e, agora, produzem juntos um significado maior, que é:

‘grupo nominal [substantivo + adjetivo] [nome de um objeto + qualidade de um objeto]; um lugar que as pessoas moram é da cor do céu, ou da água do mar’.

Assim, ‘casa azul’ é um macro-significado, composto pelos significados simples de ‘casa’ e ‘azul’.

Em ‘casa azul’ exemplificamos como dois significados se acumulam, mas a língua tem a capacidade de acumular muito mais… literalmente milhões de vezes mais. Quanto maior e mais complexo for um texto, mais significado ele é capaz de acumular.

Na música, podemos exemplificar algo parecido através dos ‘acordes’, que são a união de três notas de uma escala tocadas simultaneamente. Os acordes ocorrem junto às ‘escalas’, que são um conjunto de notas que seguem um padrão específico. As escalas são tocadas junto ao acorde gerando a ‘melodia’. Há inúmeras combinações possíveis com as notas musicais e que resultam nos mais diversos acordes e escalas. Então, para facilitar a vida dos músicos, cada significado recebe um nome. Vejamos exemplos.

A partir da escala de dó, que possui sete notas (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si), temos as notas que formam os acordes naturais. São o primeiro, o terceiro e o quinto graus da respectiva escala (no caso de dó: dó; mi e sol). Ambos ficariam assim (clique nos áudios):

  • Acorde de dó maior (dó, mi, sol):
  • Escala de notas fundamentais do tom de dó (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si):

Assim, o significado de três notas individuais (dó, mi e sol), se acumulou e, juntas, formaram o acorde de dó maior. Somado a isso, o cunjunto de sete notas tocadas formaram a escala de dó. Ambos escala e acordes realizam o ‘tom de dó’. Realiza é um termo técnico que significa “fazer acontecer”. Assim como ocorre na língua, a música também tem capacidade para acumular ainda mais, com sequências de acordes formando um campo harmônico, sem contar as diversas variações possíveis de acordes, escalas e tons. Por hora, temos:

escala (dó) + acorde (baseada na escala de dó) —> melodia (baseada na escala de dó) —> tonalidade ou campo harmônico de dó


Segmentação dos itens


Aprendemos também, no artigo “O que quer dizer quando a gente diz o que a gente quer dizer?”, sobre o item linguístico, que é qualquer parte da língua que possui alguma forma de organização. Da mesma forma, o item linguístico gramatical é qualquer parte da gramática que possui organização. ‘Item linguístico’ é, portanto, um termo geral que inclui as classes, os sistemas e as estruturas da língua.

Relembrando, esses itens linguísticos podem ser de segmentos diferentes e variam de acordo com a forma que nós os segmentamos. No caso da gramática, se utilizamos a classificação para separar os itens linguísticos, estes então irão variar segundo as classes (de morfema, palavra, grupo ou oração). Cada item linguístico possui o seu lugar no todo, e esse lugar determina a forma como o item linguístico está organizado (ver Quadro 1). Dependendo da forma como classificamos os itens linguísticos da gramática, eles serão organizados segundo diferentes classes.

segmentaçãoexemplo
1.Tem muito tempo  |  que a gente não se fala
2.Tem  |  muito tempo  |  que  |  a gente  |  não  |  se fala
3.Tem  |  muito  |  tempo  |  que  |  a  |  gente  |  não  |  se  |  fala
4.Te |  m  |  muit |  o  |  temp |  o  |  que  |  a  |  gent |  e  |  não  |  se  |  fal |  a
QUADRO 1 – As diferentes formas de “dividir em pedaços” (segmentação) de “tem muito tempo que a gente não se fala”

Cada item linguístico possui o seu lugar no todo, e esse lugar determina a forma como o item linguístico está organizado (ver Quadro 3). Dependendo da forma como nós classificamos os itens linguísticos da gramática, então eles são organizados segundo diferentes classes.

classificaçãoexemplo
1. classe de oraçõesoração principal  |  oração dependente
2. classe de grupos de palavrasgrupo verbal  |  grupo nominal  |  grupo conjuntivo  |  grupo nominal  |  grupo adverbial  |  grupo verbal
3. classe de palavrasverbo  |  adjetivo  |  substantivo  |  conjunção  |  artigo  |  substantivo  |  advérbio  |  partícula  |  verbo
4. classe de morfemasradical |  desinência  |  radical |  desinência  |  radical |  desinência  |  que  |  a  |  radical |  desinência  |  não  |  se  |  radical |  desinência
QUADRO 2 – As diferentes formas de classificar a fala “tem muito tempo que a gente não se fala” de acordo com o lugar dos itens linguísticos

Na música, a segmentação se daria de maneira diferente.

Vejamos a música “Parabens pra você”. Na tabela abaixo, temos a segmentação da música. Cada nota individual junta-se às outras para formar os seguintes padrões na música:

Música “Parabens para você
  1. Escala: escala natural de dó maior (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si). Veja que as notas da escala estão em uma sequência que gera a melodia da música, e é sempre alguma das notas da escala de dó (não vemos nenhum dó sustenido, por exemplo):
Notas da música “Parabens para você”

  1. Acordes: dó maior (dó, mi, sol); sol maior (sol, si, ré); fá maior (fá; lá; dó). Veja os acordes, ocorrendo em pontos específicos da melodia/escala que se desenvolve, que vimos anteriormente; eles estão representados na figura abaixo por letras. As letras correspondentes aos acordes são C (dó); G (sol) e F (fá). A propósito, é muito comum ver acordes representados por letras, na música:
Acordes da música “Parabéns para você” (letras C, F e G)
  1. Campo harmônico: dó (dó maior; ré menor; mi menor; fá maior; sol maior; lá menor; si diminuto). Por fim, a escala de dó e os acordes utilizados realizam a tonalidade/campo harmônico de dó, que são os acordes de dó; sol e fá. Ou seja, Parabens para você está em tom de dó.


Gênero


Nos artigos “A língua do bate-papo e da fofoca” e “Oi, Sumido! Vai uma cantada aí?”, vimos como nós humanos, seres sociais, quando precisamos fazer qualquer coisa no nosso dia-a-dia utilizamos os gêneros da língua – seja quando batemos papo com os colegas de trabalho ou saímos para uma festa de aniversário, participamos de uma entrevista de trabalho, escrevemos a redação da prova do ENEM e vários outros contextos. É por meio desses recursos que manuseamos todo o aspecto social da nossa vida – é como construímos nossa rede de contatos, conversamos com amigos e criamos relações interpessoais em ambientes, muitas vezes, formais.

Falando em linguagem mais técnica, utilizamos configurações de significados que nos permitem alcançar algum objetivo em sociedade. Esses significados vêm das escolhas gramaticais, semânticas e contextuais que fazemos, como, por exemplo, uma maior utilização de orações interrogativas na gramática, ou adjetivos positivos na semântica para elogiar a pessoa e as coisas que ela fala.

Esses significados se organizam em unidades que compõem os gêneros, aos quais chamamos de etapas. Elas são o “passo a passo” necessário para que alcancemos nosso objetivo em sociedade, e são específicas a cada gênero.

Por exemplo, quando estamos em um bate-papo com um amigo, contamos uma história, ou seja, utilizamos o gênero Narrativa para contar o que nos aconteceu:

Orientação^Complicação^Resolução

Aqui temos a Orientação que nos contextualiza sobre o lugar e os personagens envolvidos na narrativa. Em seguida, temos a Complicação, ou seja, o problema que acaba sempre ocorrendo aos personagens e, por último, a Resolução do problema, onde tudo volta à paz, como de início. Essa seria a configuração genérica básica de qualquer história que ouvimos ou assistimos.

Também podemos observar aqueles que parecem ser os “gêneros da música”. Mas, será que eles têm alguma similaridade com os gêneros da língua?

Bom, em primeiro lugar, os gêneros musicais também têm uma função social de “engajar”, assim como as narrativas, que são um gênero descrito pela linguística. Engajar aqui está no sentido de ‘envolver’, promover a atração da pessoa à aquela peça de entretenimento, assim como nos sentimos engajados em um filme (narrativa) quando o estamos assistindo.


Mas, e quanto a música? O que define um gênero na música? 

Bom, para a Musicologia, Gênero musical é uma forma de categorização que agrupa peças musicais que compartilham características. No entanto, a maneira como usamos as categorias e teorizamos sobre elas depende de como definimos o conceito de gênero musical. As teorias musicológicas atuais propõem que os gêneros são “conjuntos com propriedades que envolvem percepção, memória, imaginação e intuição do ouvinte”.

A natureza artística da música e os vários critérios para classificar os gêneros fazem com que o resultado pareça, muitas vezes, subjetivo e confuso demais, sendo que alguns gêneros podem se sobrepor a outros. Por exemplo, algumas músicas presentes em albuns de heavy metal (link) são tão “leves” quanto a maioria das músicas de artistas românticos, logo, porque são de gêneros diferentes? No gênero brasileiro sertanejo, vemos as mais variadas estruturas e arranjos, muitas sequer utilizam os instrumentos clássicos do gênero, que são o violão, a viola caipira e a sanfona (link).

Considerando essa inconsistência de critérios, para lidar com a parte do gênero na música, não seria apropriado usarmos a perspectiva sistêmica, até para fazermos o contraponto com a análise da língua e as partes e subpartes que encontramos? Seria apropriado, por exemplo para um cientista que estivesse investigando o significado e as estruturas que ocorrem em uma letra de música. Lá encontrariamos categorias comparáveis desde as partes mais indivíseis de ambos (letras das palavras e notas das músicas), quanto do ponto de vista mais abstrato (gênero). Sendo assim, vamos tentar esboçar aqui algumas características genéricas de alguns gêneros musicais conhecidos.

Graus de complexidade: Simples, Médio; Complexo

Graus de complexidade:

Simples: 1 variação ou nenhuma variação (na maioria das músicas encontradas do gênero)

Médio:  2 a 3 variações

Complexo: mais de 3 variações

Ressaltamos que a classificação acima trata-se apenas de um esboço. Seria preciso uma pesquisa séria que delimitasse os critérios de classificação dos gêneros e depois realizasse a análise em um corpus. Em seguida, todos os exemplares do corpus, que compreenderiam vários gêneros populares modernos seriam analizados segundo o mesmo rigor e critérios, para que não haja mais sobreposição de gêneros ou inconsistência entre os exemplares.

Como vemos estamos, a investigação do funcionamento das nossas formas de significar pode ser muito reveladora. É muito diferente de apenas utilizá-las, como fazemos diariamente. Trata-se do mesmo objeto, porém, ele parece outra coisa quando o “dissecamos”. Consequentemente, quando adquirimos o conhecimento minucioso dos sistemas e de suas partes, tais esquemas passam a fazer parte de nós, do nosso jeito de experienciar tanto a lingua como a música, ou qualquer outra forma de linguagem estudada. Ademais, o estudo aprofundado nos revela as reais diferenças entre as partes do sistema em funcionamento, o que nos permitiria, por exemplo, acabar com a confusão e imprecisão das classificações de gênero da música que vimos aqui.