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Série: E se Free Willy não fosse ficção? A língua e a cultura das orcas. Parte 2: Como orcas se comunicam: três tipos de sons e os dialetos diferentes

Na Parte 1 da nossa série E se Free Willy não fosse ficção? A língua e a cultura das orcas, falamos um pouco sobre quem são as orcas: os diferentes ecótipos, a organização da sociedade das orcas residentes, os seus diferentes hábitos (dietas e dialetos diferentes) e por que elas evoluíram e se tornaram animais tão complexos. Agora, nesta parte 2, vamos aprender sobre a língua delas, bem como aprofundaremos a questão dos dialetos. Caso você ainda não tenha lido a Parte 1, clique aqui e nos acompanhe desde o início!


Como as orcas se comunicam?


Dessa forma, começamos perguntando: como as orcas se comunicam? Para início de conversa, podemos destacar que esses animais são umas das poucas espécies cujos sistemas de comunicação e organização social parecem ter uma relação direta e clara! Assim sendo, as orcas são excelentes objetos de estudo para investigações comparativas linguístico-culturais, de forma a nos permitir vislumbrar pontos de contato com a evolução da língua humana. Para que possamos entender a organização linguística das orcas, consideramos importante primeiro que retornemos, mais uma vez, ao ambiente em que elas vivem. Aqui reforçamos a necessidade de se analisar o nosso objeto em toda sua realidade biológica, para que assim tenhamos uma visão mais clara da cultura desses animais e do sistema de comunicação que evoluíram.

Como já comentamos anteriormente, as orcas vivem em um ambiente tridimensional. As características desse ambiente podem ter favorecido a evolução da aprendizagem vocal, a capacidade de produzir e modificar sons com base nos tutores com quem crescemos na infância, na complexidade observada hoje, uma vez que, em um ambiente dessa natureza, os órgãos de produção sonora se comprimem e levam a mudanças nas estruturas sonoras. Dessa forma, para produzir os mesmos sons de maneira confiável em diferentes profundidades, os mamíferos aquáticos precisam ter controle voluntário sobre a produção dos sons que produzem.

Além disso, na água o som viaja cerca de quatro vezes mais rápido do que no ar e, uma vez que a visibilidade dentro da água é mais limitada, o som acaba sendo mais importante que a visão. Embora alguns sons de mamíferos terrestres viajem por quilômetros – uivos de lobos, por exemplo -, a maioria dos sons desses animais tem um alcance mais curto. Em contraste, um grande número de sons de mamíferos marinhos pode ser ouvido em distâncias que superam vários quilômetros, tornando o oceano o ambiente ideal para se comunicar através da modalidade sonora. 

Outra característica importante para entender a complexidade vocal das orcas é a bagagem evolutiva como animais terrestres que elas trouxeram para os oceanos e mares (orcas evoluíram de animais terrestres! Veja imagem abaixo). As orcas, assim como outros mamíferos marinhos, evoluíram adaptações das estruturas respiratórias que os vertebrados terrestres desenvolveram ao longo de milhões de anos: narizes, vias nasais e pulmões. A partir dessas adaptações, as orcas produzem os seus sons de formas únicas, uma vez que as densidades distintas do oceano permitem que as vibrações das membranas sejam transmitidas de forma bastante eficiente na água. 

Uma audição apurada foi outra característica herdada dos mais de 350 milhões de anos de história evolutiva terrestre pelas orcas, de modo que se tornaram capazes de explorar o significado da importância do som no oceano. Pesquisas anteriores demonstraram habilidades excepcionais de discriminação de frequência dos delfinídeos (golfinhos, toninhas, belugas e narvais): são animais que podem discriminar sons tonais que diferem em apenas 0,2–0,8% da frequência básica de um tom. Por fim, esses animais evoluíram cérebros relativamente grandes e complexos e, no caso dos cetáceos, sobretudo no caso dos odontocetos (os cetáceos com dentes, como aprendemos na Parte 1), os cérebros tornaram-se muito maiores, tanto em tamanho absoluto quanto relativo à massa corporal, o que pode ter contribuído para a complexidade social e linguística das orcas. 

Figura 1: a linha evolutiva das orcas: de animais terrestres para os animais mais soberanos do mundo aquático. Fonte: Riverview Science (2015)

Dentro do cenário de grande complexidade social que vimos na Parte 1 e em um ambiente físico propício para a propagação de sons, as orcas, como os outros odontocetos, evoluíram uma grande variedade de vocalizações, de forma geral, para dois propósitos: navegação e comunicação. As vocalizações, de naturezas diferentes e realizando funções diversas, podem ser divididas em três categorias mais gerais: cliques (ouça aqui), assobios (ouça aqui) e chamadas pulsadas (ouça aqui). 

Ademais, as orcas são dotadas de uma boa visão e parecem fazer um certo uso de linguagem corporal, mas, uma vez que a visibilidade embaixo d’água é de apenas 50 metros, a modalidade acústica é possivelmente o principal meio pelo qual as orcas se comunicam. Deve-se destacar mais uma vez que sabemos consideravelmente mais sobre os sons e as estruturas sociais orcas residentes do leste do Pacífico Norte, mas estima-se que as características culturais e comunicativas de outros ecótipos que se alimentam de peixes em outras partes do mundo também sejam complexas.


Cliques


Os cliques são emitidos em sequências rápidas e usados como sinais de ecolocalização para navegação (como os morcegos fazem e, aparentemente, alguns seres humanos também!), detecção de presas e outras orcas, além de possivelmente comunicação: os ecos desses cliques permitem que os animais formem uma imagem acústica dos seus arredores. São cliques ultrassônicos de menos de um milisegundo de duração, emitidos em séries repetitivas que podem durar 10 segundos ou mais. A taxa de repetição dos cliques varia de alguns poucos até 200 cliques por segundos; essa variação parece ocorrer de acordo com fases diferentes durante a caça e outras atividades – à grosso modo, cliques mais lentos usados para navegação e orientação e repetições rápidas para investigar objetos e presas mais próximas.

Figura 2: como funciona a ecolocalização: os sons são produzidos pelo melão, um órgão localizado na cabeça das orcas, e o eco é recebido a partir da mandíbula de uma orca. De certa forma, pode-se dizer que elas ouvem não pelo ouvido, mas pela mandíbula!

Fonte: https://seaworld.org/animals/all-about/killer-whale/communication/ 


Assobios


Os outros dois tipos de sons, assobios e chamadas pulsadas, são usados ​​para comunicação social dentro e entre grupos. Assobios são sons agudos, acusticamente complexos e de intensidade relativamente baixa que tendem a ser associados a interações de curta distância entre indivíduos, possivelmente para negociar relações sociais em uma série de atividades diferentes. 

Em algumas ocasiões são produzidos em sequência e também exibem diferenças acústicas consideráveis que aparentam desempenhar funções distintas, como assobios ultrassônicos. Especula-se que assobios ultrassônicos sejam produzidos para comunicação de alcance ainda mais curto a fim de evitar que outras orcas ouçam as vocalizações (será que as orcas também fofocam?). 

De maneira interessante, os assobios também parecem desempenhar uma outra função: são compartilhados entre orcas de diferentes clãs da mesma comunidade e que, portanto, não usam o mesmo repertório de chamadas pulsadas ou dialetos (como veremos adiante), mas interagem e cruzam entre si – uma espécie de língua franca para orcas que usam dialetos distintos, mas que pertencem à mesma comunidade! Por exemplo, existem duas comunidades de orcas residentes: as do norte e as do sul. A comunidade do norte é composta de 3 clãs, que se comunicam a partir de assobios. Por sua vez, as orcas da comunidade do sul possuem um repertório totalmente diferente de assobios. Resultado: mesmo basicamente compartilhando a mesma região, orcas residentes do norte e do sul não interagem! 

As medições dos parâmetros acústicos indicam que os assobios das orcas são muito mais complexos do que os assobios descritos para outros delfinídeos; são comparativamente mais longos em duração e contêm um maior número de modulações de frequência.  Pesquisas já foram realizadas analisando a evolução e mudança de tipos de assobios com o tempo, indicando que são vocalizações aprendidas, que evoluem e mudam com o tempo, bem como a língua humana – as chamadas pulsadas também passam por esse processo.


Chamadas pulsadas


O último tipo geral de vocalização das orcas são as chamadas pulsadas. São o tipo de vocalização mais frequente nas gravações em estudos de campo e, portanto, mais presente nos estudos sobre as orcas. São vocalizações de alta intensidade e extremamente complexas, podendo ser ouvidas a até 10 km debaixo d’água. Por conseguinte, são  mais usadas durante comportamentos em que os animais estão muito distantes, enquanto viajam e caçam.

A maioria das chamadas se enquadra em tipos de chamadas discretas, porém existem também  chamadas variáveis, que não podem ser organizadas em categorias estruturais claramente definidas e chamadas aberrantes, incluindo características acústicas que parecem ser baseadas em uma chamada discreta, mas passam por uma modificação grande ou são distorcidas na estrutura. 

Cada tipo de chamada pulsada parece exibir funções diferentes; as discretas como vocalizações de longa distância para manter coordenação e coesão do grupo, ao passo em que as variáveis e aberrantes são ouvidas em contextos de atividades mais sociais, desempenhando funções semelhantes aos assobios, sendo, também, de menor alcance. 

Cada grupo de orcas produz um número e tipos específicos dessas chamadas discretas, que juntas formam seu dialeto. 


Dialetos


Acredita-se que os dialetos funcionam como “distintivos acústicos”, permitindo que membros de um grupo possam facilmente distinguir as chamadas das orcas dos mesmos grupos dos de grupos diferentes. Os dialetos também podem funcionar como indicadores de parentesco e assim servir para escolher parceiros, a fim de evitar consanguinidade – orcas acasalam com aquelas que menos parecem com elas acusticamente, mas que ainda pertencem à mesma comunidade: ou seja, que possuem o mesmo repertório (ou dialeto) de assobios. Nenhuma chamada parece ter relação exclusiva com uma certa atividade, mas algumas parecem ser mais ou menos frequentes dependendo do contexto. 

O dialeto do grupo é aprendido por cada indivíduo, imitando sua mãe durante a infância (ouça aqui uma interação entre mãe e filhote), mas também há evidências de aprendizagem em estágios mais tardios na vida desses animais, além de aprendizados entre membros do mesmo grupo, em um processo de aprendizagem horizontal (em que há aprendizagem entre membros da mesma geração). 

Os dialetos são tão diferentes que mesmo um ouvinte inexperiente consegue perceber: ouça aqui os diferentes dialetos de orcas que vivem na Rússia: dialeto 1 e dialeto 2. Compare também orcas residentes e orcas transitórias. Lembrando que essas orcas habitam a mesma região e interagem entre si, no caso das russas, e as residentes e transitórias também compartilham as mesmas águas. As diferenças são impressionantes, não são? 

Essas chamadas exibem variação específica de cada grupo no nível do repertório vocal (ou seja, quais chamadas são compartilhadas), bem como na estrutura dos tipos de chamadas individuais, com todos os membros de uma unidade matrilinear e grupo compartilhando um repertório comum de 7 a 17 tipos de chamadas. Alguns deles podem ser compartilhados com outras unidades matrilineares que possivelmente compartilham algum parentesco, formando os clãs. No entanto, os tipos de chamadas compartilhadas geralmente mostram algum grau de variação estrutural específica de cada grupo, além da taxa de uso de certos tipos de chamadas em detrimento de outros. 

Enquanto os repertórios de chamadas das orcas são estáveis por longos períodos de tempo, a estrutura dos tipos de chamadas individuais sofre mudanças sutis, o que reflete, assim como no caso dos assobios, como essas vocalizações são aprendidas e mudam com o tempo. 


Expressando emoções e identidade


Por fim, estipula-se que o estado emocional de um indivíduo seja refletido nos tipos de chamadas que ele escolhe usar e também na forma como a chamada é produzida. Por exemplo, em momentos de excitação, as orcas aumentam o tom e encurtam a duração da chamada. Além disso, pesquisas apontam que cada orca produz chamadas de uma forma consistente mas sutilmente diferente das outras do seu grupo, de forma a codificar a sua identidade no som produzido.

Com esse sistema de comunicação, as orcas parecem ser capazes de transmitir a identidade individual e do grupo a que pertencem, a sua localização e estado emocional para as integrantes do seu ciclo social, de forma a preservar a coordenação, coesão e integridade nas associações que engaja durante toda a sua vida.

Todos esses padrões, específicos de cada grupo e culturalmente transmitidos, encontram paralelo em outras espécies; contudo, parece que alguns aspectos das orcas, como os dialetos e a evolução com o tempo tal como no caso das línguas humanas são raros e oferecem uma comparação potencialmente frutífera com a evolução humana. 

Para efeitos de comparação, várias espécies de primatas apresentam hábitos socialmente transmitidos, assim como pássaros. Contudo, em muitos casos, os dialetos, dietas e práticas específicas desses animais são resultado de diferenças geográficas: em um lugar se comportam de uma maneira e em outro, de outra. Assim como humanos, os diferentes grupos, clãs e comunidades de orcas são simpátricas, ou seja, compartilham a mesma região geográfica e, em muitos momentos, interagem entre si. Outro contraste que chama atenção é que os comportamentos vistos nas orcas parecem abranger os comportamentos vocais e físicos, fato raro em outros animais além dos humanos.


Por que isso acontece?


As razões pelas quais alguns animais, incluindo humanos, desenvolveram tal capacidade ainda são debatidas. Uma possível explicação é que a aprendizagem vocal evoluiu como um meio de aumentar a complexidade dos sons para atender a uma necessidade crescente de reconhecimento de indivíduos, parentes ou parceiros sociais à medida que os sistemas sociais se tornaram mais complexos. A complexidade estrutural dos sons pode ter evoluído para funcionar como marcadores de grupo, em um cenário em que soar semelhante ao membro do mesmo grupo pode ter aumentado a aptidão da espécie. 

É o mesmo caso dos dialetos e das línguas humanas. Além disso, a língua humana pode ter evoluído como grandes repertórios de sons específicos de certos grupos como resultado da necessidade de cooperar de forma eficiente. O aumento do tamanho dos grupos pode ter decorrido do surgimento de maiores pressões de predadores após a mudança de habitats de áreas de floresta para savana aberta. Para cooperar nesses grupos maiores e acompanhar parentes próximos e possíveis parceiros, sons complexos podem ter se tornado benéficos. Essa não é uma particularidade humana: todas as espécies móveis, nas quais a associação com membros da mesma espécie é vantajosa, podem ter desenvolvido estratégias para manter a coesão do grupo, sobretudo se as mães e a sua prole frequentemente se separam, caso das orcas.


Beleza, mas então o que é língua e cultura?


A pergunta que fica então é: ok, mas se orcas têm língua e cultura, então o que essas duas coisas são? Isso será discutido na última Parte 3, a última da nossa série. Até lá!