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A língua do bate-papo e da fofoca

Ouvimos sempre, desde a escola e pelo restante da vida, linguistas falarem sobre como a língua nos ajuda de maneira mais formal, como na hora de fazer provas (como construir uma redação nota 1000?), de conseguir trabalhos (como escrever o currículo ideal?), ou de cumprir tarefas (qual linguagem deve ser utilizada ao responder um e-mail do seu chefe?).

Pouco se fala, porém, de como a utilizamos no nosso dia a dia, quando batemos papo com os colegas de trabalho ou saímos para uma festa de aniversário. Este aspecto também é importante, visto que é por meio dele que manuseamos todo o aspecto social da nossa vida – é como construímos nossa rede de contatos, conversamos com amigos e criamos relações interpessoais em ambientes, muitas vezes, formais.

Ora, então, como que isso acontece? Existe um padrão que seguimos nas nossas conversas no bar? Uma série de etapas a ser seguida? Se sim, qual parte da linguagem é responsável por isso? É possível criar um manual para aprender a socializar por meio desse tipo de texto? É aqui que vamos descobrir.


A conversa cotidiana


Tudo isso que foi citado anteriormente ocorre por uma família de gêneros chamada conversa cotidiana (casual conversation, em inglês). Embora possa parecer que esses “bate-papos” informais não tenham uma estrutura ou uma função, foi comprovado que não só essas interações têm uma lógica a ser seguida como são de extrema importância para nossa existência em sociedade, podendo muitas vezes influenciar de forma decisiva até mesmo em nossa vida profissional.

Primeiro, vamos definir a conversa cotidiana e quais gêneros estão inseridos dentro desta família.

A conversa cotidiana é uma família de gêneros – ou seja, um grupo de dois ou mais gêneros que tem em comum um mesmo propósito social – responsável pela criação e manutenção das nossas relações interpessoais. É nela que encontramos os gêneros que utilizamos no dia-a-dia, como a fofoca, a piada, o flerte e o bate-papo – e cada gênero tem como função manusear algum dado aspecto de nossos relacionamentos, como a troca de valores no caso da fofoca, ou o interesse por algo a mais como o flerte.

GêneroDescriçãoEstrutura genérica
NarrativaGênero utilizado para contar alguma sequência de eventos que envolve algum conflito a ser resolvido.(Abstract) ^ (Orientação) ^ Complicação ^ Avaliação ^ Resolução ^ (Coda)
AnedotaGênero utilizado para contar uma sequência de eventos.(Abstract) ^ (Orientação) ^ Evento ^ (Coda)
ExemplumGênero utilizado para contar algum evento que ocorreu, e como ele fez o narrador se sentir.(Abstract) ^ (Orientação) ^  Incidente ^ Interpretação ^ (Coda)
RecountSemelhante à narrativa, porém com a adição de uma avaliação de como os eventos foram resolvidos.(Abstract) ^ Orientação ^ Sequência de Eventos ^ Complicação ^ Avaliação ^ Resolução ^ (Coda)
ComentárioGênero utilizado para atribuir um comentário sobre algum evento que ocorreu.(Orientação) ^ Observação ^ Comentário ^ (Coda) ^ (Completion)
OpiniãoGênero utilizado para atribuir uma opinião referente à algum evento que ocorreu.Opinião ^ Reação ^ (Evidência) ^ Resolução
FofocaGênero utilizado para trocar valores sociais por meio de uma sequência de eventos que ocorreu com alguém que não está presente na conversa.Foco na 3ª pessoa ^ Substanciamento ^ Avaliação ^ (Defesa) ^ (Resposta à defesa) ^ Concessão ^ Finalização

Vamos olhar mais a fundo alguns desses gêneros.


Contar uma história x fazer fofoca: qual a diferença?


Todos nós já ouvimos falar do gênero que está na boca do povo: a fofoca. Existe um grande debate acerca do que é fofoca e de sua função. É só falar mal de alguém? Será que faz bem fofocar? É só “coisa de gente que não tem o que fazer”? Qual a diferença entre fofocar e “passar a história pra frente?”.

Bom, com a ajuda da nossa grande amiga Linguística vamos desmistificar um pouco esse gênero!

Primeiramente, devemos falar sobre o grupo de gêneros chamado ‘história’. Este grupo reúne os gêneros utilizados para contar algum evento que aconteceu conosco ou com alguém que conhecemos, e como nos sentimos com relação aquela situação. É comum que, nesses gêneros, haja um interlocutor que fale mais do que os outros – aquele que está contando a sequência de eventos – enquanto os outros participantes adicionam comentários para estimular a conversa.

Vejamos um exemplo.

(COM_FD_02)

X: Aí, menino mas eu nunca tinha visto tanta gente em toda minha vida, por causa de um, um pedaço de unha e um pedaço de pano. Tinha muita gente sabe?
Y: Hum.
X: A gente foi de carro aí a gente…
Y: Mas onde é que foi? Aqui?
X: Aqui em B. Aí a gente encontrou com as relíquias lá na C.M. sabe?
Y: Hum.
X: Menino tinha tanta gente e foi excursão e tinha os político lá sabe, e eu lembro que o pai da S., na volta assim ele encontrou com a gente, aí ele voltou com a gente aí ele tava comentando, ah tava chateado de ver os políticos lá, que eles não têm fé que não sei o que, aí ele falou qualquer coisa comigo, eu lembro que eu tava achando aquilo tudo tão especial, tava achando aquilo tudo tão engraçado que eu falei assim “Oh Sr. J eu não sabia avaliar nem a minha fé que dirá a daquele povo assim”. E foi meio rude assim, mas saiu natural porque realmente assim sabe. Eu não conseguia entender aquela quantidade de gente ali, eu fui pra evento social, adorava evento social da sociedade…
Y: Mas assim o que é que veio, você chegou a ver os restos dele?
X: É, vi, de longe, mas é que veio…
Y: O que que é?
X: Eu não lembro se era unha, cabelo, osso, eu sei que tinha roupa também, pedacinho de tecido que vinha numa, naquelas caixas de vidro.
Y: Hum.
X: Uma bubiça né, não tem nada a ver aquilo, mas eu  lembro que eu quase tive fé naquilo, que aquilo era importante sabe?
Y: Hum.
X: Assim, eu não consigo demonstrar respeito, eu não consigo entender essas coisas, muito estranho, né?

O texto acima – e todos os outros que serão utilizados nesse artigo – foi retirado do CALIBRA, uma coletânea de textos em português brasileiro utilizados para análises linguísticas. Por se tratar de um texto falado, outros sistemas semióticos além da língua são utilizados, como o de som (para dar prosódia[R1]  ao texto) ou o a linguagem corporal. Ou seja, apenas escrever o que é dito não é o suficiente; o texto tem que passar por um processo de transcrição. Por não termos como falar de forma mais aprofundada sobre esse processo nesse artigo, os exemplos foram adaptados de forma a facilitar um entendimento mais geral; os originais podem ser encontrados no anexo.

Agora voltando à conversa cotidiana, o texto COM_FD_02 constitui um exemplo do gênero exemplum. Esse gênero tem como função recontar um evento, bem como a forma como você se sentiu quando ele acontecia ou hoje em dia. No caso desse texto, o narrador conta sobre um evento religioso ao qual ele foi, e relata não ter se identificado com aquela experiência. Isso, por sua vez, cria uma empatia entre os participantes, a qual permite a negociação no nosso nível de familiaridade no contexto, tornando-os mais próximos ou mais distantes. 

A fofoca, por sua vez, é parecida com a narrativa por também recapitular um evento que ocorreu. Porém, há uma grande diferença entre esses dois gêneros: enquanto a narrativa estabelece valores afetivos (de como nós nos sentimos com uma situação), a fofoca estabelece valores sociais (quais comportamentos são aceitáveis ou não em uma devida situação).

Então peraí: a fofoca é mesmo uma forma de julgar os outros? Sim e não.

Embora a fofoca de fato apresente julgamentos, eles não são direcionados à pessoa, e sim à uma ação. A diferença se encontra em um sistema encontrado no estrato da semântica chamado Avaliatividade, o qual apresentamos abaixo.

Essa diferença é essencial, pois é nela que reside a diferença entre a exclusão e a aproximação. A fofoca, por trazer uma apreciação positiva ou negativa relacionada à uma ação, tem como função social a aproximação entre pessoas. Isso ocorre pois, ao comentar algo que aconteceu com outra pessoa e avaliar aquilo como bom ou ruim, nós estabelecemos os valores sociais que são importantes para nós, de forma a criar uma intimidade maior com pessoas que partilhem dos mesmos valores. Ou seja, o propósito da fofoca não é excluir a pessoa sobre quem se está fofocando, e sim criar uma maior aproximação entre o grupo que faz a fofoca.[1]

(COM_FD_02)

C: Você tem notícia do D?
N: Não. E a última vez que… que a menina falou– conversou comigo ela falou assim que ele ligou pra ela
N: Ligou pra ela. E falou com ela assim que era pra… pra eles encontrar
C: Oh
N: Pra… pra… falar sobre a…
C: O divórcio?
N: A separação né? Ela pegou e falou “não, eu não tem conversa não, eu não tenho que encontrar com você não. Você procura o meu advogado (que) a conversa nossa agora é só através do meu advogado”
N: “E o advogado é só – é fulano de tal, é só você procurar ele. ”
J: É, não é brinquedo não, boba
P: Essas menina, você acha que elas é boba?
N: De boba ela só tem a cara C
C: Ah coitadinha
G: Como é que é o D – ele não ficou com a menina no final das contas?
C: Menino ele casou com ela pra ficar o que? Um ano casado né?
G: É… é…
C: Dois anos casado (e) largou ela
G: É, aí eu lembro dessa história, mas depois voltou, não voltou?
C: Não, isso foi da primeira vez
J e C: Foi antes de casar
G: Ah foi antes de casar?
J: É depois de casado largou de novo.
C: Sacanagem né?

No texto COM_FD_02, temos um exemplo de fofoca: cinco pessoas expondo suas opiniões sobre um casal no qual D terminou com T para ficar com outra mulher e, após terminado este outro relacionamento, D e T voltaram e se casaram – se separando novamente apenas um ano. É possível ver que, de acordo com o valor social compartilhado pelo grupo, a atitude de D é vista como algo negativo (“menino, ele casou com ela pra ficar o que? Um ano casado né?”, “sacanagem né?”).

O uso de “(ele) largou”, por exemplo, ao invés de “eles terminaram” traz um julgamento mais negativo. Além disso, também coloca a responsabilidade desse valor negativo no comportamento de D na situação ao coloca-lo como sujeito da oração.

Há também um julgamento feito a respeito de T, quando falam “essas menina, você acha que elas é boba?”. Este, porém, é um julgamento positivo, relacionado a atitude que T teve de não encontrar com D, cumprindo todo o processo de divórcio através do advogado.

Tudo isso cria, entre o grupo, um valor social de empatia à situação de T, e rejeição às ações de D. Com isso, não é que o grupo esteja excluindo D, mas sim estabelecendo que, para todos eles, terminar com sua namorada de anos para namorar outra menina, para depois voltar com a primeira namorada somente para deixá-la após um ano de casamento não é aprovado.  


Características da conversa cotidiana


A conversa cotidiana como um todo tem características próprias, que a diferem de gêneros mais formais aos quais estamos acostumados. Vejamos algumas delas aqui.

A conversa cotidiana é vista, muitas vezes, como caótica. Isso ocorre por dois motivos:

  1. Por ser, geralmente, um texto falado, os erros e reestruturações naturais que ocorrem durante sua produção não são disfarçados ou deletados, diferentemente de textos escritos, nos quais podemos apenas apagar e começar tudo de novo.

Exemplo: “E a última vez que… que a menina falou– conversou comigo (…)”

2.  Por serem gêneros altamente interativos, sua evolução é mais variável. Isso não significa, porém, que eles não tenham uma estrutura a ser seguida. Como vimos nesse artigo, há, sim, uma estrutura essencial para cada gênero, porém existem várias formas de transitar de um gênero para outro, a uma forma chamamos de “chat” e essa, sim, é mais variável. Isso também influencia na duração desses gêneros, os quais tendem a ser mais curtos em razão da transição constante entre gêneros.

Outra característica da conversa cotidiana é a utilização de outros sistemas semióticos. Já foi falada a importância da linguagem corporal no flerte, e ela também é muito importante nos outros gêneros de conversa cotidiana – afinal, é através dela que há a agnação entre o flerte e os outros gêneros.

Para além da linguagem corporal, também podemos olhar o sistema de imagem utilizado na conversa cotidiana em textos escritos, por meio da ortografia e até mesmo o uso de emojis (ZAPPAVIGNA, 2012; 2018).  

Fonte: https://i.pinimg.com/originals/46/56/30/4656309206f4d559cbb36e2498e4cce9.jpg

Conclusão


Vocês se lembram daquelas perguntas iniciais? Bom, com tudo discutido até aqui, podemos finalmente respondê-las!  

Como que construímos nossa rede de contatos? Todos os nossos relacionamentos interpessoais são construídos e mantidos por meio da conversa cotidiana, um grupo de gêneros utilizados para a troca de valores emocionais e sociais.

Existe um padrão que seguimos nas nossas conversas no bar? Uma série de etapas a ser seguida? Sim! Cada gênero da conversa cotidiana tem sua própria estrutura genérica e segue sua própria lógica.

Se sim, qual parte da linguagem é responsável pela conversa cotidiana? Principalmente a língua; porém, é comum mais de um sistema semiótico estar envolvido na construção do texto, como o som ou a linguagem corporal. 

É possível criar um manual para aprender a socializar por meio desse tipo de texto? Sim! Em teoria, se todos os gêneros da conversa cotidiana fossem modelados (ou seja, se fossem identificadas todas as realizações linguísticas de cada etapa), seria possível criar um manual didático de como cada gênero funciona.

Esperamos que esse texto tenha ajudado vocês a entender um pouco melhor como a Linguística está presente em todos os momentos da vida – até durante os momentos de descontração no bar. Quem sabe vocês não são os próximos a desvendar outro gênero da conversa cotidiana no Brasil?


Referência bibliográfica


Eggins, Suzanne, and Diana Slade. Analysing casual conversation. Equinox Publishing Ltd., 2005.

Zappavigna, Michele. Discourse of Twitter and social media: How we use language to create affiliation on the web. Vol. 6. A&C Black, 2012.

Zappavigna, Michele. Searchable talk: Hashtags and social media metadiscourse. Bloomsbury Publishing, 2018.


Anexo


COM_FD_02

C: nesses namoro assim quase morto assim você tem notícia do D?

N: não. é a última vez que. . . que a menina falou– conversou comigo ela falou assim que ele ligou pra ela

G: [credo olha aqui?

C: [risos]

N: ligou pra ela. e falou com ela assim que era pra. . . pra eles encontrar

C: oh

N: pra. . . pra. . . falar sobre a. . .

C:– o divórcio?

N: a separação né? ela pegou e falou “não eu não tem conversa– não eu não tenho que encontrar com você não. você procura o meu advogado a conversa nossa agora é só através do meu advogado”

C: um

N: “e o advogado é só– é fulano de tal é só você procurar ele. ”

J: é não é brinquedo não boba

N: [ [ininteligível] uma casa

P: essas menina você acha que elas é boba?

N: de boba ela só tem a cara C

C: ah coitadinha

G: como é que é a– o D –ele não ficou com a menina no final das contas?

C: menino ele casou com ela pra ficar o que? um ano casado né?

N: um

G: é. . . é. . .

C: dois anos casado largou ela

G: é aí eu lembro dessa história mas depois voltou, não voltou?

C: [ não isso foi da primeira vez

J: [ [ininteligível] foi antes de casar

C: [ foi antes de casar

G: ah foi antes de casar?

J: é depois de casado largou de novo.

C: sacanagem né?


[1] O gênero responsável pela exclusão de outro indivíduo é a intriga, a qual apresenta julgamentos mais negativos direcionados diretamente a alguém, e não a um comportamento ou ação. Esse gênero ainda está sendo pesquisado, de forma que o abordaremos futuramente.


 [R1]glossário