Compartilhe:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Por que dizemos o que dizemos?

Você já parou pra pensar que a gente sempre tem que fazer uma escolha? Isso inclui até mesmo a fala.

Nós somos seres que vivemos em uma sociedade que só funciona por causa da comunicação. Por exemplo, desde muito jovens aprendemos que, para conseguir um grande favor de uma pessoa, é necessário agradá-la. Então nos aproximamos, mostramos interesse nas atividades dessa determinada pessoa e então falamos o que queremos de maneira dócil. Inconscientemente escolhemos este modo de agir e falar para conquistar o que queremos, mas o que seria essa escolha? Por que seguimos este passo a passo?

Podemos pensar que, ao longo da vida, fomos percebendo as reações das pessoas em relação às nossas ações, até chegarmos a uma conclusão. Essa série de etapas que passamos para cumprir um objetivo é denominado de gênero.

É aquilo que fazum bebê fazer manha sempre, após perceber que sua mãe se dispõe a fazer qualquer coisa que ele queira para que não fique de birra. O gênero é um dos estratos inclusos no que é chamado de Linguística Sistêmico Funcional, cujo seu objeto é o sistema sociossemiótico. Este sistema se trata de uma organização da língua, um processo de escolha, em que a língua é uma estratégia evolutiva, que nos ajuda a viver melhor.

            A organização também é encontrada no mundo animal, porém não do mesmo modo, isso porque animais são seres que não possuem língua. Portanto, essa organização vem como uma programação genética, ou seja, através do instinto de sobrevivência. Por exemplo, os pernilongos sentem quando vai chover, sabem que precisam se esconder dentro das nossas casas, onde terão abrigo e alimento. Você já deve ter observado que em dias quentes e de chuva de verão as picadas são insuportáveis.

            Como falantes, seres possuidores de língua, a nossa estratégia evolutiva se dá por meio da criação de significados e da comunicação. Nós temos a capacidade de prever situações em cada esfera comunicativa inseridas no nosso cotidiano (na escola, em casa, no trabalho, na casa de amigos entre outros). E para cada uma dessas situações, nós possuímos um tipo de discurso.

Você sabe que não deve chamar sua professora de “parça”, ou usar memes com a diretora. Isso porque essas atitudes não fazem parte da organização de um ambiente escolar. Caso se comportasse dessa maneira, soaria estranho, tornando a situação desconfortável, sem contar a possibilidade de uma punição. Escolher o que vai ser dito em cada ambiente é como nos organizamos para formar sentido, é uma organização cultural, portanto sociossemiótica.

A linguagem é a forma geral de comunicação, ou seja, todo e qualquer meio utilizado para produzir significados e gerar uma interação. Para construirmos sentido na linguagem, muitas vezes em um texto usamos referências de outros textos, outras imagens, sons, etc. Essas referências são conhecidas como intertextualidade. Nós, seres comunicadores, usamos intertextualidade o tempo todo.

Como tudo que possui significado é um texto (ou faz parte de um texto), desde o que vemos, lemos, ouvimos e tocamos, podemos dizer que os intertextos estão em tudo. O curioso, é que aqueles que fazem tais referências a realizam de modo natural, não planejado, e ao mesmo tempo, aquele que recebe a mensagem entende automaticamente que é uma referência, ou seja, um intertexto.

O modo virtual da linguagem é responsável pelas situações mais frequentes de intertextualidade da atualidade, através dos memes, por exemplo. Os memes são textos que viraram outros textos, e que a partir dessa mudança criaram um novo sentido.

 Por exemplo, no dia 05 de Julho de 2017, a jornalista Renata Vasconcellos virou meme após citar os adjetivos utilizados pelos advogados do Presidente da República à época, Michel Temer, para defendê-lo da acusação feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Em um documento de quase cem páginas, em que a jornalista leu parte durante o Jornal Nacional, a defesa classificou a acusação de corrupção passiva no caso JBS como “xoxa, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente”.

(Origem do meme)

https://twitter.com/cariina__/status/1450272033691082757

Depois que o programa foi ao ar, a internet só comentava sobre a jornalista. E então, os termos que ela usou passaram a ser colocados em diversas situações, aumentando ainda mais o humor da cena e consequentemente a popularidade do meme, que é usado até hoje, quatro anos depois. Segue o exemplo:

(Meme derivado)

https://br.pinterest.com/pin/802063014883487765/

Então, sim, até mesmo na fala nós fazemos escolhas, para construir sentido e gerar interação. Conforme observamos nas imagens, um texto passou a ser utilizado por várias pessoas, gerando sentidos diferentes do original. Portanto, os memes são um tipo de escolha, pois o nosso objetivo é gerar humor ou trazer intensidade a um texto, que não seria possível sem a presença deles. Considerando que este modelo de comunicação virtual seja uma escolha, e que a presença dele potencialmente impacta em significados, você acredita que os memes seriam um novo gênero? Se a resposta for sim, você imagina os livros didáticos explicando os memes nas escolas?


Referências


MARCUSCHI, L. A. O Papel da Atividade Discursiva no Exercício do Controle Social. Cadernos de Linguagem e Sociedade, [S. l.], v. 7, p. 07–33, 2010.

BAZERMAN, C. Gêneros Textuais, Tipificação e Interação. Ângela Paiva Dionísio, Judith Chambliss Hoffnagel (orgs.). Revisão técnica Ana Regina Vieira et al. São Paulo, SP / Cortez Editora, 2005.