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A organização da língua – Parte 1: a ‘intenção’ do falante e a ‘organização’ do mundo’

Será que aquilo que falamos se origina exclusivamente de nossa intenção de dizer? Quando escrevemos um texto, existe de fato uma intenção de escrever e nada mais? Nesta série, que terá duas partes, trataremos de como a língua funciona de um jeito diferente do que vemos no senso comum, porém, que faz mais sentido. Vamos questionar ate´onde vai a “intenção” em nossas ações, a aparente “organização” do mundo e de que maneira isso afeta a ciência. Para começarmos, observe a seguinte imagem de capa do post, acima.

Ao olharmos para a imagem e refletindo sobre sua organização, podemos dizer que trata-se de uma sala e que ela está organizada. Vemos que ela tem móveis e alguns objetos dispostos de maneira simétrica e proporcional. Então, dizemos que este espaço está “organizado”, segundo a perspectiva do senso comum. Em outras palavras, as coisas estão no lugar onde deveriam estar.

É razoável pensar que algum ser humano teve a intenção de dispor todas essas coisas, ou seja, alguém pegou a cadeira, botou no ali canto, colocou o sofá em cima do tapete, as lâmpadas ao redor simetricamente, etc. Comumente, é assim que entendemos como se dá a organização das coisas. Até mesmo alguns cientistas associariam a intenção de dispor os móveis à cognição do tal indivíduo, como se almejassem investigar sua mente e vasculhar-lá, em busca do raciocínio que levou essa pessoa a dispor os elementos dessa maneira e não de outra.

Os estudiosos da cognição investigam como as pessoas percebem, entendem, avaliam e raciocinam sobre a informação do mundo. Mas, mesmo esses cientistas têm dificuldade em determinar como essas ações se dão dentro do cérebro, incluindo a intenção, que pode ser levada em consideração como teoria comprovada se estivermos tratando de um único indivíduo e seus processos mentais. Mas um fato realmente comprovado é o de que somos socializados através de uma língua. Logo, o fator social iria determinar o modo como executamos tais processos mentais, seja lá como eles funcionem. Haja vista que a socialização também influencia no nosso senso de organização individual, pois aprendemos o que é uma sala organizada justamente através do convívio em sociedade e do aprendizado da língua.

Retomando a ideia de “intencionalidade”, ela é frequentemente admitida como a única explicação provável para a maioria das pessoas. Cabe ressaltar que não se trata de intenção como uma mera ilusão da nossa percepção da realidade, mas sim de um tipo de resposta que surge de maneira natural e até automática na investigação dos fenômenos naturais e sociais.


O surgimento do vidro


Ao refletirmos sobre essa questão mais detalhadamente, chegaremos a conclusões que nos afastam da ideia de pura intencionalidade – por exemplo, considere as janelas, lá no fundo, que são de vidro. O vidro não foi produzido e nem inventado pela pessoa que organizou essa sala. Há 7 mil anos, os fenícios o descobriram por acaso nas praias, com a fórmula fogo + areia + nitrato de sódio. Já a técnica para sua utilização em janelas e pratos foi desenvolvida muitos séculos depois, com os romanos.

Figura 1: vidro de janela romana preservado

Agora podemos questionar se a pessoa que organizou essa sala teve a “pura intenção” ou se ela está, na verdade, trabalhando com outras intenções diversas, com outras formas de organizar o mundo que ocorreram no percorrer de diversos processos históricos. Esses  processos são diversos acontecimentos do passado que nós, seres humanos, documentamos, ensinamos uns aos outros e que influenciam a noção de organização do mundo no presente.


A criação da lâmpada elétrica


Para reforçar com outro exemplo, vejamos o surgimento das lâmpadas que cercam o sofá do cômodo. Para sua criação, teremos as contribuições de Thomas Edson, Michael Faraday, Jaule, Francis Hauksbee, cada um deles com uma descoberta diferente sobre eletricidade que resultou na invenção da lâmpada.

Francis HauksbeeEm 1710, o cientista britânico usou eletricidade estática para produzir um brilho em um globo de vidro oco esgotado de seu ar.
James P. JauleEm 1818, chegou a um resultado com corrente elétrica e resistores elétricos.
Michael FaradayDescobriu o princípio da indução eletromagnética, em 1831.
Thomas EdsonConstruiu o protótipo da lâmpada incandescente em 1879.
Colaborações para a invenção da lâmpada

Se Jaule tivesse decidido ser jogador de tênis, ou se tivesse ocorrido alguma outra variação, não teríamos essa sala iluminada do jeito que ela está aí! A conclusão a que se chega é a de que estamos fadados a lidar com o caos do mundo, onde a organização é um mero desenrolar dos acontecimentos históricos e sobre os quais nossa intenção pouco importa.


Lindando com o caos: os padrões da chuva


Contudo, podemos fazer algo a respeito para lidar com o caos: encontrar seus padrões inerentes. Mesmo que seja pequena a chance de um fenômeno ocorrer da exata maneira que aconteceu uma vez, é comum que esse fenômeno ocorra repetidas vezes e com características, pelo menos, similares todas as vezes. Neste caso, estamos em busca de seu padrão recorrente que, inclusive, pode ser previsto pelo seu estudo científico.

Por exemplo, se conseguirmos descobrir porque chove em julho e faz calor em janeiro, com a ajuda da ciência meteorologia, poderemos planejar a agricultura de modo a desfrutar de uma farta colheita ou prever enchentes e outros desastres naturais. Na evolução da espécie humana, acabou se tornando uma grande vantagem descobrir como as coisas funcionam do jeito que funcionam. Quando descobrimos a razão por trás do funcionamento dos fenômenos, conseguimos ter mais controle sobre eles!

Figura 2: previsão das tendências de temperaturas para a estação de verão é que fiquem acima da normal climatológica, sendo que será comum dias com grande amplitude térmica, com manhãs agradáveis e tardes de muito calor.

Diante do que vimos até aqui, as premissas da organização do mundo seriam:

1. A organização é histórica, isto é, acontece no tempo. Não existe uma organização ou forma de organizar que esteja descolada da história. O objeto é fruto de desdobramentos na história e nada é imediatamente como parece ser ou é intencional.

2. A organização é evolutiva e aconteceu por acaso. Poderia ter acontecido de outro jeito, mas aconteceu de determinada maneira, o que, por sua vez, causou um determinado efeito sobre outra coisa, que causou sobre outra, etc. E tudo poderia ter ocorrido de outra maneira se as condições fossem diferentes.

3. Um elemento importante da organização é o acaso e, por consequência, a probabilidade. É natural das coisas serem caóticas mas, também, probabilísticas, cujos padrões estudamos para tentar sobreviver/viver melhor no mundo.  Logo:

A organização do mundo é histórica, evolutiva e probabilística


Conclusão


Relembrando o que vimos até aqui: a “organização por acaso” não significa “bagunça”, mas sim “a chance muito pequena de algo acontecer da mesma maneira”. Isso substitui a necessidade de responder a nossos questionamentos pela “intenção da consciência individual”, que é quando dizemos coisas como “é assim porque fulano quis” ou “eu cheguei a essa conclusão sozinho”. Esse não seria o ponto de vista da ciência, pois isso só diz respeito ao que pensa uma pessoa que não leva em consideração tudo o que precisou ocorrer no meio para que ela quisesse ou fizesse algo de “novo” no mundo. Afinal, se pensarmos bem, esse tipo de resposta pronta pode ser usada apenas para não perder tempo investigando o porquê das coisas.

Mas, e quanto a língua? A organização do sistema da língua também não seria intencional, ela se deu por meio do acaso, assim como os exemplos explicados acima. Na segunda parte, iremos, enfim, explicar formas como produzir conhecimento sobre o nosso objeto, a língua, de forma a considerar suas características sistêmicas e funcionais. Assim poderemos entender como a história, a evolução e as probabilidades resultaram na língua que faz parte de nós e com a qual experienciamos o mundo.

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