A língua que falamos molda a maneira como pensamos?

Existem por volta de 6.500 línguas faladas em todo o mundo – e todas elas têm suas próprias características relativas à gramática, discurso e contexto. Mas, elas moldam a maneira como pensamos? Em sua pesquisa, Lera Boroditsky, cientista cognitiva e professora da Universidade da Califórnia em San Diego, faz estudos comparando os falantes do inglês com falantes de diferentes línguas e descrevendo as diferenças na maneira como eles pensam e agem em um determinado contexto.

Ela nos diz que essa ideia de que a língua molda a maneira como concebemos realidade é algo especulado a muito tempo. Carlos Magno, o Imperador Romano-Germânico, disse uma vez: “Ter um segundo idioma é ter uma segunda alma”, uma forte afirmação sobre como a língua cria a realidade. Mas, por outro lado, em Romeu e Julieta, de Shakespeare, temos: “O que há em um nome? Uma rosa teria um cheiro agradável com qualquer outro nome”. Isso sugere que talvez a língua não crie a realidade. São discussões no âmbito do senso comum que sempre aparecem em registros escritos do passado. E não haviam dados que pudessem nos ajudar a decifrar a questão numa abordagem mais científica, até recentemente.

“Em meu laboratório e em outros ao redor do mundo, conduzimos pesquisas e temos agora dados científicos reais para embasar essa questão”, afirma Boroditsky. Ela cita alguns exemplos, como o de uma comunidade aborígene da Austrália com a qual ela trabalhou. O povo Kuuk Thaayorre, que vive em Pormpuraaw, na margem extremo oeste de Cabo York, não usa palavras como “esquerda” e “direita”. Em vez disso, tudo é expresso em pontos cardeais: Norte, Sul, Leste e Oeste. Tudo mesmo.

Figura 1

Em suas interações, eles dizem coisas como: “Ah, tem uma formiga na sua perna a sudoeste”; ou: “Arreda o seu prato um pouquinho para o norte-nordeste”. Além disso, o modo como você diz “Olá” em Kuuk Thaayorre é: “Para onde você vai?” E a resposta pode ser: “Norte-Nordeste, no lado de lá, e você?”. 

“Se nós falássemos uma língua que tivesse essa característica, nossa orientação seria impecável, até porque, mal conseguiríamos passar do ‘olá’ se não soubéssemos as direções. Os falantes de línguas como essa têm uma orientação muito boa, aliás muito superior ao que achávamos que uma pessoa pudesse ter”, relata Boroditsky.

Além disso, algumas línguas têm muitas palavras para cores; enquanto outras têm apenas duas: “claro” e “escuro”. Há idiomas que diferem em função de onde estão estabelecidos os limites entre elas. Em português, por exemplo, existe a palavra ‘blue’ que abrange todas as cores azuis mas, em russo, não. Não há uma única palavra para todas as tonalidades de azul. Em vez disso, os falantes de russo diferenciam o azul claro, “goluboy”, do azul escuro, “siniy”, ou seja, tratam-se de duas cores diferentes, em russo.

Figura 2

“Os russos passam a vida distinguindo essas duas cores. Quando testamos a capacidade das pessoas de distingui-las, descobrimos que os falantes de russo são mais rápidos nesse quesito. São mais rápidos em dizer a diferença entre os dois espectros da paleta”, explica.

Em outro exemplo, ela nos conta que existem algumas línguas que não têm palavras definidas para números. Elas não têm uma palavra como “sete” ou “oito”. De fato, as pessoas que falam essas línguas não contam os números progressivamente e, em geral, têm problemas em distinguir quantidades exatas.

As línguas têm todos os tipos de peculiaridades estruturais. Elas também se diferenciam no modo como descrevem os eventos. Em inglês, por exemplo, está correto dizer algo como: “they broke your vase” (eles quebraram seu vaso). Já em um idioma como o espanhol, é mais provável que se diga: A ti te rompieron el florero”¹. Ou seja, se for um acidente, eles não deixam explícito que ele foi causado por alguém. Já no inglês, podemos até dizer coisas do tipo: “Eu quebrei meu braço”. 

A questão é que falantes de línguas diferentes prestarão atenção em coisas diferentes, dependendo do que a língua lhes oferece como possibilidade. Então, se você mostrar o mesmo acidente a falantes do inglês e do espanhol, os falantes do inglês se lembrarão de quem o causou, porque no inglês se diz: “Ele fez isso; ele quebrou o vaso …”.

Theybrokeyour vase
Quem fezaçãoquem sofreu
Elesquebraramseu vaso
Quebraram seu vaso
Terompieronel florero
Quem foi “beneficiado”açãoquem sofreu
Para vocêquebraramo vaso
Quebraram seu vaso

“Os falantes de espanhol podem não se lembrar de quem quebrou o vaso, no caso de um acidente. É mais provável que se lembrem de que foi um acidente; ou seja, é mais provável que se lembrem da intenção”, lembra Boroditsky.

A diversidade linguística é bela porque ela nos revela o quanto é genial e flexível a mente humana, e que aquilo que conhecemos sobre a mente humana ainda é muito limitado e carregado de preconceitos e desmitifica-los é algo que cabe às pesquisas na área e à sua divulgação. E Lera completa: “Mostrei como falantes de diferentes línguas pensam diferente, mas não se trata de como as pessoas de outros lugares pensam. Trata-se de como nós pensamos. Trata-se de como as línguas que falamos moldam a maneira como nós pensamos. Isso nos dá a oportunidade de perguntar: Por que penso dessa maneira?, como poderia pensar de modo diferente?, e também: Quais pensamentos desejo criar?”


¹ Além disso, em espanhol pode-se falar dos dois jeitos: “A ti te rompieron el florero” ou “Rompieron tu florero”. Existe também o acidental, que é o “se te rompió el florero”. Em Português brasileiro: “fizeram pra você o favor de quebrar o vaso” (com tom irônico).


Recomendações:


Lera Boroditsky (2021): 7,000 Universes: How the Language We Speak Shapes the Way We Think.

Steven Pinker (1998): Como a mente funciona?

Steven Pinker (2008): Do que é feito o pensamento : a língua como janela para a natureza humana.

Paul Kay & Willett Kempton (1984): What is the Sapir-Whorf hypothesis.

Gerald Edelman (1991): Bright Air, Brilliant Fire.


Referências: