Leitura, Sentidos e Telas

Um rápido teste

Você que acabou de iniciar esta leitura, eu lhe proponho um pequeno exercício de auto-observação. Pode ser com este artigo ou com qualquer outro texto que tenha de ler através da tela do computador ou do celular. A tarefa é simples: se estiver lendo através do último, tente perceber e contar quantas vezes você sente vontade de olhar alguma notificação ou abrir algum aplicativo que tenha o costume de utilizar com frequência; já se estiver realizando a leitura pelo computador, contabilize o número de vezes que surge o desejo de abrir uma nova aba ou de pegar o celular para mexer um pouco. 

Mas por que às vezes perdemos o foco com tanta facilidade? Para o professor Adam Aron da Universidade da Califórnia, em San Diego, a mesma estrutura cerebral responsável por interromper movimentos no nosso corpo, chamada núcleo subtalâmico, também pode parar processos cognitivos. Essa área cerebral é normalmente ativada quando uma situação inesperada acontece ou estamos em uma situação de perigo. Seria, portanto, uma forma de proteção que nosso cérebro possui para aliviar o estresse psicológico e físico. 

Associando este fato à leitura em telas, podemos pensar que quando temos de realizá-la e isso de alguma forma nos gera pressão ou inquietação, nossa defesa natural é a de procurar refúgio em alguma outra aba ou aplicativo do dispositivo que estejamos usando para a leitura. Porém, ainda que seja uma reação natural, vale pensar que qualquer mecanismo de defesa, biológico ou não, é projetado para ser ativado em condições de extrema necessidade. Portanto, se você tem perdido o foco muitas vezes durante uma mesma leitura, há algo a se repensar. 

Mas então, será que você consegue chegar até o final sem mexer no celular?  E se conseguir, o quanto conseguirá lembrar do que leu? Mas antes de responder se ler através das telas é benéfico ou prejudicial é interessante compreender de forma geral o que é a leitura e como essa habilidade que desenvolvemos está relacionada aos nossos processos mentais. 


Leitura e definições


Se alguém lhe perguntasse se você “lê bem”, qual seria sua resposta? Independente da de ser sim ou não, quais critérios você teria utilizado para responder a primeira pergunta? 

Para ajudar a clarear essas questões talvez primeiro seja preciso pensar o que de fato seja “ler”. Segundo a professora do programa de Pós-Graduação em Letras – Mestrado da UNISC, Rosângela Gabriel, “ler é estabelecer uma relação entre grafema¹ e fonema², a partir da qual será possível a produção de um significado”. 

Este seria o sentido mais tradicional que estamos acostumados a atribuir ao processo da leitura. Aquele em que decodificamos as letras para associarmos seus conjuntos a sentidos pré-existentes na memória. Mas restringir este conceito apenas a isso seria reduzir a um átomo de hidrogênio o que o universo da leitura pode abranger. A própria Rosângela expande sua definição inicial ressaltando que “num sentido ampliado, ler é estabelecer uma relação entre um símbolo (sons, cores, ícones, gestos, letras) e um significado […]”. Se pensarmos no Braille, por exemplo, temos um sistema de escrita tátil que é capaz de garantir que pessoas cegas ou com baixa visão possam ler. Seja com grafema visual (letra) ou grafema tátil (letra em Braille), é possível a obtenção de um sentido, como vemos na figura:

Braille Alphabet Org | Educação especial, Alfabeto, Você é especial
Figura 1: Grafema visual e grafema tátil da letra P

Enquanto Rosângela é mais tradicional em sua definição de leitura, Affonso Romano de Sant’Anna nos ajuda a vislumbrar a extensão deste processo de construção de sentidos através de sua visão sobre “ler o mundo”. O escritor e poeta traz exemplos como estes para definir a leitura: “o astrônomo lê o céu, lê a epopeia das estrelas”; “o físico lê o caos”; “um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada”; “o técnico, vê coisas no texto em jogo que, só depois de lidas por ele, por nós são percebidas”. Em outras palavras, desde o despertar até o dormir novamente, estamos lendo o tempo todo. Lemos o clima, o humor das pessoas que estão ao nosso redor, as condições do trânsito e tudo mais que você seja capaz de identificar como leitura.  

Nesses últimos tempos em que o rompimento de barragens em Minas Gerais se tornou um medo coletivo é comum ver placas como essas espalhadas pelas cidades que seriam alvo dos rejeitos caso uma nova catástrofe acontecesse:

Figura 2: Sinal de Rota de Fuga padrão utilizado em cidades que correm risco de inundação por rejeitos de minério.

Ainda que a informação da placa esteja escrito de forma clara, depois da primeira vez que se faz a leitura das palavras, o que a ela significa passa a ser mais importante do que ela propriamente informa com as letras. Em uma situação extrema, rapidamente nossos olhos iriam em busca das cores e do padrão previamente memorizado para encontrar a melhor opção de refúgio.  

Tomando outra perspectiva sobre a leitura, para o escritor, sociólogo e filósofo francês, Roland Barthes, ela pode ser entendida como “um conjunto de práticas codificadas”. Dentro desse conjunto ela se subdivide em: técnica, prática social, forma de gestualidade, forma de sabedoria, método e atividade voluntária.

Expandindo um pouco cada uma das vertentes da leitura propostas por Barthes, a leitura como técnica se relaciona a operação simples de identificar uma letra ou palavra e associá-la a um significado. Como prática social a leitura está vinculada a lutas políticas e sociais ao longo da história. Enquanto gestualidade, a possui relação com as partes físicas do corpo acionadas para efetuá-la. Associada à sabedoria, está ligada ao acesso ao conhecimento. Sendo um método, implica ser uma habilidade construída e que nos permite processar cada vez melhor diferentes tipos de texto. E, por último, como atividade voluntária, a leitura detém um caráter de escolha, de liberdade e de entretenimento. 

Seja vista como apenas uma decodificação de palavras, interpretação de mundo ou práticas codificadas, a leitura é inegavelmente uma habilidade que aperfeiçoa e transforma quem somos enquanto sujeitos sociais, ou seja, pessoas que vivem em sociedade e são capazes de interagir através da língua. 


A prioridade do sentido na leitura


Vimos então que “ler bem” vai muito além da concepção tradicional que geralmente se tem do que seja esta habilidade. Porém, se retornarmos a uma esfera mais restrita e que diz respeito apenas a relacionar letras e sons para produzir significados, é possível afirmar que quando alguém possui uma leitura eficiente é porque decifrar um código não é mais um obstáculo. A atenção pode estar toda voltada para a elaboração de sentidos e não é necessário ficar parando ou retornando a leitura para que ela seja satisfatória. 

Vale lembrar que ler palavras no papel ou nas telas é uma habilidade construída, que não nascemos com ela, e que requer prática e conhecimentos prévios para que fique cada vez mais elaborada. O fato é que quando lemos não identificamos palavra por palavra, mas, como nos mostrou o psicolinguista Frank Smith, notamos conjuntos de cerca de cinco palavras ou mais, sendo que os sentidos vão se formando cada vez mais rápido quanto mais eficiente é o leitor e maior o seu conhecimento prévio. Smith ainda contribui com nossa reflexão demonstrando o quanto buscamos prioritariamente o sentido ao lermos. Neste exemplo:

Minha terra tem many palm-trees

Onde sings the trush bird

As aves que sing here

Não sing like there

Figura 3: Exemplo de trecho da “Canção do Exílio” com palavras em inglês

Ao iniciar a leitura deste pequeno trecho, mesmo sem dominar o inglês, você muito provavelmente reconheceu que se tratava dos primeiros versos da “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias. Identificando as três palavras no começo da primeira linha, sem necessidade de ir até o final, você já deve ter cantarolado o restante dos versos em voz alta ou não, tamanha é a familiaridade que existe com este poema. Vemos aqui que, ao ler, estamos à procura do que já é familiar e pode facilitar nossa compreensão. 

Outro caso muito popular que nos mostra como estamos em busca dos sentidos, é quando lemos textos como este: 

Por que o cérebro consegue ler quando faltam letras ou quando elas estão  trocadas? - VIX
Figura 4: Trecho escrito com as letras fora da ordem usual

Mesmo que as letras estejam organizadas de um modo diferente daquele que estamos acostumados, ainda sim somos capazes de entender a mensagem pois não lemos letras e sim blocos de palavras, sempre em busca de construir sentidos de forma mais eficiente. ‘


Leitura em telas


Até aqui já foi possível visualizar um panorama resumido do que seja ler e como essa habilidade está focada em produzir sentidos, seja através de palavras ou sinais do mundo. Neste ponto já podemos começar a refletir: “leio melhor quando estou utilizando papel, quando utilizo o celular, tablet ou computador, ou não vejo diferença?”.

Para sanar essa questão, Maryanne Wolf, neurocientista e pesquisadora da Universidade da Califórnia, em seu livro “O Cérebro no Mundo Digital – Os desafios da leitura na nossa era”, vem discutir exatamente essa temática. Segundo ela, estamos modificando nossa habilidade de leitura movidos pelo hábito de “passar os olhos” superficialmente por muitos textos e postagens online. 

Parte de suas conclusões se baseou em uma análise feita por estudiosos da Espanha e de Israel que analisaram dados de 171 mil pessoas na Europa, coletados entre 2000 e 2017, para comparar a compreensão de leitura dos participantes nos meios digitais e papel. Os resultados deste estudo não foram absolutos, mas identificou o que chama “inferioridade da tela”, pois a leitura digital parece não favorecer as habilidades de compreensão dos leitores.

E, ainda de acordo com o resultado da pesquisa, essa prática de leitura em telas tende a enfraquecer gradualmente nossa capacidade de compreender argumentações mais elaboradas e, por consequência, criar nossa própria visão a respeito do que lemos.

Para perceber um exemplo de como isso tem acontecido, basta pensar nas notícias em geral. É comum que a maioria das pessoas que usem um smartphone esteja por dentro de todos os eventos mais chamativos que os veículos de comunicação divulguem, mas não tem sido natural que elas saibam debater as notas que absorveram utilizando argumentações individuais ou presentes nas próprias fontes de onde extraíram as informações. 

Outro ponto que desfavorece nosso mergulho em leituras mais profundas ao utilizarmos as telas, é a ansiedade desenvolvida que muitos de nós já manifestamos com o hábito de procurar constantemente pelas notificações que os aparelhos nos dão. A tentativa de executar muitas tarefas ao mesmo tempo se tornou algo natural, sendo que é cada vez mais raro conseguir se concentrar em uma única atividade enquanto se está fazendo o uso das telas para a leitura.


O que fazer para melhorar?


Pois bem, se você se identificou de alguma forma com essa forma de ler mais “rasa” que alguns de nós vem desenvolvendo, não espere que a solução seja a de abandonar as telas. Pelo contrário: é impossível retroceder. A tendência é que passemos a ler mais e mais através dos aparelhos digitais. 

O problema não está na tecnologia em si, mas em como os softwares e algoritmos têm sido projetados com objetivos comerciais visando nos manter focados nas telas sem estarmos propriamente concentrados em apenas um tópico, mas em múltiplos. Tudo isso com a intenção de nos expor a anúncios que podem nos conduzir a uma compra física no presente ou futuro. Se você quiser compreender melhor como esse “aprisionamento digital” ocorre, vale a pena assistir ao documentário “O dilema das redes” disponível no serviço de streaming Netflix.

Portanto, ainda que não haja solução definitiva até que se redesenhe a forma como consumimos conteúdo midiático, existem algumas sugestões que podem contribuir com a qualidade das leituras que realizamos: se for fazer uma leitura que demande mais concentração e seja de maior importância, como Maryanne Wolf recomenda em seu livro,  realizá-la através do papel é mais recomendável; caso utilizar o papel não seja algo viável, optar por desligar a internet do aparelho que está usando para não ser distraído pelas notificações que chegam é uma dica oferecida no documentário “O dilema das redes”; e se focar em uma leitura sem pensar em religar o 4G ou Wi-Fi esteja sendo um desafio muito grande, meditar ou qualquer atividade que diminua o seu estímulo cerebral, tende a auxiliar a melhoria do foco e da concentração. 

A meditação, muitas vezes associada a “não pensar em nada”, vai muito além disso e é um caminho para assumirmos o controle de nossa própria consciência. Se for do seu interesse, você pode encontrar mais detalhes e iniciar sua prática com este guia de episódios curtos. O vídeoWhy Boredom is good for you?”, traz de forma sucinta uma ótima explicação que mostra os benefícios de deixar nosso cérebro “entediado” como forma de contribuir para a melhoria da atenção. Mas e aí, conseguiu chegar até aqui ou parou nas notificações.


Referências


 GABRIEL, Rosângela. A compreensão em leitura enquanto processo cognitivo. São Paulo. 2006

SMITH, Frank. Compreendendo a leitura – Uma análise psicolinguística da leitura e do aprender a ler. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. 

SANT’ANNA, Affornso Romano. Ler o mundo. São Paulo: Global, 2011.

 BARTHES, Rodand, COMPAGNON. A. Leitura. In Enciclopédia Einaudi. Volume II. 

WOLF, Maryanne. O cérebro no mundo digital. Contexto

GEREMIAS, Daiana. Por que seu cérebro perde o foco e 6 meios de resolver o problema. Disponível em:      <https://www.megacurioso.com.br/neurociencia/99155-por-que-seu-cerebro-perde-o-foco-e-6-meios-de-resolver-o-problema.htm>